• Félix Rodrigues

É preciso saber ler números: erros e desinformação

Numa altura em que o mundo ultrapassou os 33 milhões de infetados por SARS-CoV-2 e 1 milhão de mortes a ciência continua a tentar perceber um pouco a lógica e pensamento das pessoas. Não se trata de engenharia social, trata-se de perceber a sua irracionalidade e descrença na realidade.

Factos: Hoje Portugal tem oficialmente 425 novos casos de infeção, tendo ultrapassado a marca dos 74 000 infetados. Ainda há portugueses que não conhecem pessoalmente pelo menos um infetado? Existem no país 74029 pessoas que foram oficialmente infetadas e muito provavelmente 370 mil que já foram infetadas num número muito superior ao oficial. Por mais que se queira não se consegue apanhar todos os casos para que os possamos registar oficialmente. O número de hoje não representa um decréscimo da taxa de infecção em Portugal. Temos que esperar pelo meio da semana para que se possa concluir algo. Há mais 4 óbitos contabilizando-se oficialmente 1957 mortes.

As redes sociais, democratizadas, têm feito mais mal do que bem no esclarecimento do problema pandémico porque publicam verdades, mentiras e meias verdades. Tudo isso baralha qualquer um se confiar em tudo o que lê.

Porque se acredita naqueles que pensam de forma imediatista como nós? Isso é errado. Devemos confrontar-nos com o nosso próprio pensamento, caso contrário caminharemos lentamente para o caos e ignorância. As redes sociais deveriam ajudar a formar-nos e a educar-nos, mas pelo contrário, servem para exacerbar alguns ódios virtuais ou tentar afirmar-se num mundo que ninguém sabe exatamente o que é, com pessoas a clicar num botão que significa “Gosto”, “Fúria”, “Riso”, “Ternura”, etc, ou seja, expressão de sentimentos que sem nos olharmos olhos nos olhos e sem nos conhecermos, significa muito pouco.

Recentemente saiu um estudo da University of Michigan que aponta uns números que me deixam perplexo e que não deve fugir muito da realidade portuguesa.

Nos Estados Unidos, e isso não deve diferir muito na maioria dos países ocidentais, entre 0,9 milhões de pessoas e 4,5 milhões de pessoas por ano apanham gripe. Oficialmente a infecção por SARS-CoV-2 nos USA é no mínimo o dobro dos casos de gripe (e ainda não acabámos o ano) até 8 vezes mais. Qualquer comparação das duas infeções em termos de número de afetados é ridícula.

O número oficial de mortes por gripe por ano nos USA varia entre 1 200 e 6 100. Neste momento, e ainda não fez um ano, o número oficial de mortes por Covid-19 é cerca de 205 000 mortes.

Cerca de 65% dos USA pretendem vacinar os seus filhos este ano, contra a gripe, mas só 33% os pretendem vacinar contra o nono coronavírus caso apareça uma vacina. Que grande contrassenso!!

Muita gente vive numa bolha e toma decisões desinformadas sem ter a mínima noção da realidade e da importância de uma comunidade saudável. Cada vez menos as pessoas se sentam frente a frente para discutir ideias e perceções. É por esse terreno fértil que avança a pandemia e o populismo.

A ciência evoluiu e por vezes, num dado momento dá as indicações erradas.

Hoje partilho aqui um artigo de ZAP com o título “Qual é a maneira mais provável de ter Covid-19?”

Em março, ainda nos estágios iniciais da pandemia de SARS-CoV-2, o médico norte-americano Jeffrey VanWingen divulgou um vídeo no YouTube, no qual aconselhava as pessoas deixar as compras de supermercado ao ar livre durante três dias, borrifar desinfetante em cada produto e mergulhar frutas em água com sabão. O objetivo de todo este processo era desinfetar os produtos que potencialmente poderiam carregar o novo coronavírus.

Agora que temos mais conhecimento sobre a doença, sabemos que alguma das dicas de VanWingen são desnecessárias e até mesmo perigosas. De momento, os cientistas dizem que o maior risco de infeção vem da inalação do que outra pessoa infetada está a exalar. Usar uma máscara parece a solução mais prática e segura.

A teoria de que o novo coronavírus se podia espalhar ao entrar em contacto com objetos que carregam o vírus não é descabida. Afinal de contas, é assim que cientistas e epidemiologistas acreditam que a maioria das doenças respiratórias se espalha, escreve o portal Elemental. É por isso que devemos lavar as mãos antes de comer ou preparar comida, por exemplo.

Alguns estudos sugeriram que o Sars-COV-2 sobrevivia 24 horas em cartão e 72 horas em plástico. Como tal, recomendou-se a lavagem e higienização das mãos como a primeira linha de defesa.

O professor de microbiologia e bioquímica da Universidade Rutgers, Emanuel Goldman, diz que as recomendações foram feitas com base nas experiências erradas.

“Eles começaram com uma quantidade enorme e totalmente irreal de vírus no início da experiência, e então, com certeza, encontraram o vírus no final. Mas eles começaram com muito mais do que você jamais encontraria na vida real”, explica Goldman.

“Você teria que ter 100 pessoas a tossir e espirrar numa pequena área da superfície para obter a quantidade de vírus que foi usada nos estudos que relataram a sobrevivência do vírus nas superfícies”, acrescenta.

Um outro estudo sugere que o vírus vai morrendo aos poucos, em que a cada seis horas, 50% do vírus enfraquece e torna-se inativo ou não infeccioso.

Em maio, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças Norte-Americano adiantou que a infeção através do contacto com superfícies não era significativo. Em contrapartida, o contacto com partículas de mucosa e saliva no ar era a principal causa de infecção.

Quando expelimos ar, seja a respirar ou tossir ou até a respirar, pequenos pedaços de saliva são expelidos. Enquanto as partículas mais pesadas caem rapidamente ao chão, as mais leves ficam no ar durante mais tempo. Estar em contacto próximo com alguém aumenta o risco de ficar exposto às pequenas partículas que estão a ser expelidas.

Muitos cientistas pensam que é assim que a maioria das pessoas é infetada com o coronavírus.

“Não é que [a disseminação através da superfície] não possa acontecer, mas a probabilidade é muito menor do que se alguém estivesse realmente à sua frente, a respirar o vírus vivo nas gotículas diretamente em cima de si”, diz Nahid Bhadelia, médica de doenças infecciosas e professora da Escola de Medicina da Universidade de Boston. “Este é um inóculo muito maior, é muito mais provável que haja muito mais vírus vivos nele, por isso é um risco muito maior”.

Use máscara para proteger os outros e assim protege-se a si também.



Félix Rodrigues

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