• Félix Rodrigues

Açorianidade no mundo em Colóquios da Lusofonia na Revista Visão

Partilha-se trabalho do jornalista João Gago da Câmara publicado na revista Visão.


O ponto de partida, nos Açores, foi o debate sobre a identidade, a escrita, as lendas e tradições açorianas. Do intercâmbio de experiências entre residentes, expatriados e todos os que dedicam a sua pesquisa e investigação à literatura, à linguística, à história dos Açores ou a outro ramo do conhecimento científico, aspirava-se tornar mais conhecida a identidade açoriana

Quando, em 2005, aterrou nos Açores, admitiu compreensivamente o seu desconhecimento sobre o arquipélago. O pouco que aprendeu no liceu estava esquecido. Depois, as telenovelas filmadas nas ilhas e as companhias aéreas de baixo-custo colocaram os Açores no centro do mundo e do turismo, que se assombra com o clima que muda constantemente (tanto chove como faz sol … as tais quatro estações num só dia que tanto apregoam) … as lagoas, as crateras e as baías, que são um deslumbramento, e os montes sempre verdes pejados de vacas alpinistas.

Chrys Chrystello, jornalista e tradutor com um historial de dezenas de traduções de autores açorianos, adotou o arquipélago como “nova mátria depois de Bragança, e nova pátria, depois de Timor e da Austrália”, considerando-se hoje absolutamente integrado. Este “ilhanizado ou açorianizado” logo no início da nossa conversa teima em invocar três nomes queridos da açorianidade, incluindo-se justamente, quando nos diz que “a ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar é Marília, para Daniel de Sá Ilha-Mãe, para mim Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver engrandecer nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis.” E revela que toda a vida foi ilhéu. “Perdi sotaques, mas não malbaratei as ilhas-filhas. Trago-as comigo, colar multifacetado de vivências dos mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, ilhota perdida da Europa no Estado Novo, seguida de um capítulo naufragado da história trágico-marítima camoniana, nas ilhas de Timor, de Bali, na então (pen)ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), na imensa ilha-continente Austrália, e em Bragança, ilhoa esquecida que é o nordeste transmontano.” Chrystello atentamente acolhe, como premissa, o conceito de açorianidade de José Martins Garcia, que, “por envolver domínios muito mais vastos que o da simples literatura”, admite a existência de uma literatura açoriana “enquanto superstrutura emanada dum habitat, duma vivência e duma mundividência”. Daí a decidir criar colóquios onde fosse possível debater a lusofonia foi um passo. E o passo foi dado corajosamente captando intelectuais de boa cepa, que, duas vezes por ano, em bloco, trabalham ciclicamente a “língua mátria”. Pesquisam, trocam e expõem ideias, mergulham profusamente na identidade açoriana, teorizam e aperfeiçoam metodologias, promovem saber no arquipélago e no mundo, em proximidade com as mais longínquas comunidades de gente que ama Portugal e o seu património cultural.

Estes encontros do saber da AICL – Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia – um movimento que a muito custo sobrevive, subsistem das quotas dos associados e das inscrições dos congressistas. Buscam apoio protocolado para cada evento, levado a cabo por uma rede de voluntários, e pautam-se pela participação de um variado leque de oradores. Logisticamente, beneficiam do apoio das entidades locais e têm parcerias com universidades, politécnicos e outras entidades. Com esta “subsídioindependência”, os colóquios sobrevivem com dois eventos por ano e são, fundamentalmente – explica-nos o fundador – “um movimento cultural e cívico com o objetivo de promover a investigação científica para reforço dos laços entre os luso falantes – no plano linguístico, cultural, social, económico e político – na defesa, preservação, ensino e divulgação da língua portuguesa e todas as suas variantes, em qualquer país, região ou comunidade. “Os valores essenciais da cultura lusófona” – adianta-nos – “constituem, com o seu humanismo universalista, uma vocação da luta por uma sociedade mais justa, da defesa dos valores humanos fundamentais e das causas filantrópicas.”


“Desde 2006” – diz-nos Chrys Chrystello – “o ponto de partida nos Açores foi o debate sobre a identidade, a escrita, as lendas e tradições açorianas. Do intercâmbio de experiências entre residentes, expatriados e todos os que dedicam a sua pesquisa e investigação à literatura, à linguística, à história dos Açores ou a outro ramo do conhecimento científico, aspirava-se tornar mais conhecida a identidade açoriana. Os colóquios levaram os Açores ao mundo, aos que não têm vínculos familiares nem conhecimento desta realidade. Independentemente da Açorianidade, mas por via dela, mais luso falantes ficaram a conhecer a realidade insular e suas peculiaridades.” E precisa que “os colóquios divulgaram a identidade açoriana na Roménia, Polónia, Bulgária, Rússia, Eslovénia, Itália, França, onde fizeram traduções de autores açorianos. Era imperioso alguém ler esses autores, insuflando-lhes nova vida, novas leituras, trazendo-os à mais que merecida ribalta.”


Chrystello encontrou “noções etimologicamente ancestrais” que contrastam com o uso atual. No dicionário de Morais vêm os termos “chamados” açorianos e em 2008, J. M. Soares de Barcelos publicou o “Dicionário de Falares dos Açores.” Observa, todavia, o diretor da AICL que “a língua recuada até às origens foi adulterada pelo “emigrês” de corruptelas aportuguesadas e anglicismos. Tratamos de desvendar o arquipélago como alegoria recuando à infância dos autores, sem perder de vista que as ilhas reais já se desfraldaram ao enguiço do presente e não podem ser só perpetuadas nas suas memórias. Quisemos apreender as suas mundividências e as infrangíveis relações umbilicais que as caracterizavam face aos antepassados e às ilhas e locais de origem.” E mais explica, com a sensibilidade que lhe é reconhecida, que “o clima inculca um caráter de torpor e de lentidão em que a pressa é amiga da morte; a história define os habitantes do arquipélago ainda quase tão afastados da metrópole como há séculos; a forma como se recortam todos os estratos sociais: vincadamente feudais, apesar do humanismo que a revolução dos cravos alegadamente introduziu nas relações sociais e familiares; o modo como a proximidade da terra se manifesta de forma sobrejacente fora das pequenas metrópoles que comandam a vida em cada ilha, num centralismo autofágico e macrocéfalo.”


Chrystello presentemente empenha-se em criar um núcleo da Lusofonia no Museu dos Descobrimentos, em Belmonte, enquanto não concretiza o seu maior sonho, a fundação do Museu da Açorianidade, projeto que se encontra suspenso há dez anos. Eis, pois, motivos mais que suficientes para que acompanhemos atentamente o percurso desta iniciativa cultural de há quase duas décadas, que é nacional mas com forte cunho regional açoriano. Os colóquios levam longe e trazem até perto a açorianidade, em particular, e a lusofonia, em geral, ajudando a promover e a cimentar nas cinco partidas do mundo esta que continua a ser a quinta língua mais falada do planeta.



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