• Félix Rodrigues

A foca-harpa avistada na ilha do Faial já tem nome: Maria Augusta

Texto e foto de Souto Gonçalves


A pedido do jornal Incentivo desloquei-me hoje de manhã ao porto velho de Castelo Branco para fotografar a foca. Vou chamar-lhe Maria Augusta, recordando a minha saudosa avó paterna que morou ali bem perto alguns anos da sua longa vida.


Cá em cima, à entrada do caminho de acesso ao porto, junto à ermida, a Polícia Marítima colocou umas fitas para impedir a passagem de pessoas. Transgredindo a proibição, aproximei-me da Maria Augusta (até uns 10 metros de distância) e fotografei-a. Com vaidade e presumindo que ainda se poderia ver no jornal antes de prosseguir a sua jornada, rodou a cabeça lentamente para me encarar e continuou no seu descanso, expondo ao sol, que vinha quente já pela manhã, aquelas banhas a tremelicar. Num concurso de beleza no Ártico ficaria entre as primeiras, estou convicto, ou não metessem inveja a qualquer macho os bigodes exibicionistas da Maria Augusta.


Este ambiente de pura calma, enternecedor, quase romântico, de dois enamorados, foi interrompido por uma pessoa a esbracejar e a gritar à beira da muralha do porto: "Não pode estar aí! Não pode estar aí!"


Retirei-me de imediato sem perceber se a Maria Augusta se perturbou com tal vozearia.


Fui então informado, alto e claro, que estava a cometer uma desobediência, a avaliar pela forma como fui abordado, uma desobediência grave.


Mostrei a minha carteira profissional, apontando para o que está escrito no verso: As autoridades a quem esta carteira for exibida deverão prestar ao respetivo titular todo o apoio imprescindível ao desempenho da sua missão profissional, sem prejuízo da observância dos preceitos legais aplicáveis.


O que estava ali em causa, para a Autoridade (agora há autoridades para tudo), era a "observância dos preceitos legais", o resto não importava.


"Dura lex, sed lex", mas também é verdade que a lei deve ser aplicada com bom-senso.


Quando tentava explicar que me aproximei com cuidado, que o meu objetivo era apenas cumprir uma tarefa profissional, fui logo interrompido com a declaração: não está provado cientificamente qual é a distância mínima para não perturbar o animal, ao que retorqui que também as fitas da Polícia Marítima não se encontram a uma distância cientificamente comprovada.


Veio depois o argumento da minha própria segurança, como se a Maria Augusta, com um metro e oitenta de comprimento e umas centenas de quilos de peso, apanhando banhos de sol no empedrado da rampa do porto velho de Castelo Branco, de um momento para o outro, pudesse dar um salto de vários metros de distância para me aplicar um passe de karaté.


Não vou relatar ao pormenor o bate-papo com a pessoa supostamente (não me mostrou a sua identificação) representante da autoridade governamental, mas sempre direi que, apesar da desobediência, acho que cumpri o meu dever, o que poderá ser avaliado amanhã na edição do jornal Incentivo.


Na volta de casa os meus tímpanos ainda vibravam com o excesso de zelo de que fui alvo. E pensei: vem a Maria Augusta do Pólo Norte visitar o Faial durante alguns dias e não pode, no mínimo, encarar um fotógrafo para o sorriso da praxe? Enquanto a Maria Augusta ali estiver - como não está pagando ficará o tempo que lhe apetecer - ninguém toma banho, tudo há-de ser feito para garantir que a menina passe a estação calmosa a seu bel-prazer, mas, Diabo, será que uma fotografia põe em causa o equilíbrio ambiental do Planeta?





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