• Tomaz Ponce Dentinho

A SEGUNDA MORTE

(Tradução de José Maria Saldanha do Texto de GRAHAM GREENE (1904-1991))


Ela encontrou-me à tardinha debaixo das árvores plantadas à saída da aldeia. Nunca tinha gostado dela e, se soubesse que se aproximava, ter-me-ia escondido. Tenho a certeza que os vícios do filho são por culpa dela. Se é que são vícios, porque estou muito longe de os ter como tal. Seja como for, ele era capaz de generosidade, nunca era mesquinho como outros, na aldeia, que podia muito bem nomear aqui se eu quisesse.

Ela nunca me teria encontrado se não me pusesse a olhar fixamente para uma folha. Uma folha que estava pendurada dum raminho, com o caule partido, ou pelo vento, ou por qualquer pedra que um dos rapazes da aldeia tivesse atirado. Só um filamento verde e resistente do caule a mantinha ali, pendurada. E eu observava-a, de perto, porque uma lagarta se arrastava pela sua superfície, fazendo a folha baloiçar para trás e para a frente. A lagarta dirigia-se para o caule e eu queria ver se o conseguiria alcançar em segurança, ou se a folha acabaria por cair, levando-a consigo para dentro de água (por baixo das árvores havia uma poça de água, uma água sempre vermelha por causa da argila do solo).

Por isso nunca soube se a lagarta sempre chegou ao caule, porque aquele estupor daquela mulher me encontrou. Foi só quando ouvi a voz dela mesmo atrás de mim que me apercebi da sua presença.

“Já andei por todos os botequins à tua procura”, disse ela, na sua voz fininha de velha. Era próprio dela dizer “todos os botequins” mesmo quando na aldeia só havia dois. Queria sempre dar a entender que tinha tido mais trabalho do que havia tido na realidade.

Fiquei logo irritado e não pude evitar responder-lhe, com aspereza: “Bem podia ter-se evitado essa maçada, já devia saber que nunca estaria no botequim numa noite linda como esta”.

O estafermo da velha ficou logo calma, ficava sempre mansinha quando queria alguma coisa. “É o meu filho, coitado”, disse ela. Queria dizer que ele estava doente. Quando o filho estava bem de saúde, nunca lhe ouvi dizer melhor do que “aquele maldito rapaz”. Todas os dias da semana ela queria-o em casa à meia-noite, como se alguém pudesse meter-se em sarilhos numa aldeola como a nossa. Claro que logo arranjámos maneira de a enganar, mas era do princípio da coisa que eu discordava: um adulto de mais de trinta anos comandado pela mãe só porque ela não tinha marido para controlar. Mas mal ele ficava doente, ainda que fosse só um ligeiro resfriado, e era logo o meu filho, coitado!...

“Está às portas da morte”, acrescentou, “e sabe Deus o que farei sem ele”.

“Bem, não me parece que possa ajudar”, respondi. Fiquei ainda mais irritado porque ele já uma vez tinha estado às portas da morte e ela não lhe tinha feito senão o enterro. Pensei logo que fosse outra vez uma morte como essa, daquelas de que escapamos. Ainda a semana passada o tinha visto por aí, a subir para a casa da rapariga peituda que mora na colina. Fiquei a olhar para ele até não ser mais do que um ponto escuro, que estacou junto à caixa quadrada dum campo, o celeiro onde costumava encontrar-se com ela. Eu tenho óptima visão e, por vezes, ponho-me a treinar até onde e a que nitidez consigo ver. Voltei a encontrá-lo depois da meia-noite e até o ajudei a entrar em casa sem a mãe saber e, nessa altura, ele estava bem de saúde. Só um pouco cansado e sonolento.

O estafermo voltou à carga: “Ele está a pedir que lá vás”, gritou-me na sua voz fininha “Se está tão mal como diz”, respondi, “era melhor chamar o médico”.

“O médico já lá está, mas não pode fazer nada”. Aquilo mexeu comigo, admito, até que pensei: “o gajo está a fingir, de certeza que está a tramar alguma”. Esperteza não lhe faltava para enganar um médico. Uma vez vi-o ter um ataque que teria enganado o próprio Moisés.

“Por amor de Deus, vai lá”, disse-me ela, “ele está espavorido”. E a voz embargou-se- -lhe de verdade, e eu acho que, à sua maneira, ela até gostava dele. Não pude deixar de ter pena dela, até porque sabia que ele nunca quis saber dela para nada e nunca tinha escondido isso de ninguém.

Deixei então as árvores e a poça de água e a esforçada lagarta, senão ela nunca mais me deixava em paz, agora que o coitado do filho estava a chamar por mim. E pensar que apenas há uma semana ela fez tudo o que podia para nos separar. Achava que eu era o responsável pela maneira de ser dele, como se alguma vez fosse possível afastá-lo duma mulher como aquela quando lhe subiam os apetites.

Penso até que foi a primeira vez que transpus a soleira da porta da casa deles desde que vim viver para cá, há dez anos. Não pude evitar deitar um olhar prazenteiro para o parapeito da janela e até me pareceu ver as marcas da escada na parede, da semana anterior. Não foi fácil endireitá-la ali, mas a mãe dele dormia a sono solto. Ele já trazia a escada do celeiro e, mal entrou dentro de casa, fui eu quem a levou de volta para lá. Mesmo assim, ele não era de fiar. Era capaz de mentir ao seu melhor amigo, porque quando cheguei ao celeiro a rapariga já lá não estava. Já que ele não podia pagar com o dinheiro da mãe, ao menos pagava com promessas alheias.

Mal me vi dentro de casa, senti-me logo pouco à-vontade. Que lá reinasse o silêncio não estranhei, uma vez que os dois nunca recebiam ninguém, embora a cunhada da velhota vivesse uns escassos quilómetros adiante. Do que não gostei foi do som que os passos do médico fizeram quando desceu as escadas para vir ter connosco. O rosto dele ficou marcado por uma devota solenidade quando nos viu, como se a morte, neste caso a morte desse amigo meu, fosse uma coisa santa.

“Está consciente”, disse ele, “mas está quase... Não há nada que eu possa fazer. Se quiser que ele morra em paz, é melhor o amigo dele subir agora. Há qualquer coisa que o inquieta muito.”

O médico tinha razão. Soube-o logo, mal baixei a cabeça na padieira da porta quando fui ao quarto dele. Estava sentado, apoiado numa almofada, com os olhos na porta, brilhantes e amedrontados, à espera que eu entrasse. O cabelo atravessava-lhe a testa em madeixas pegajosas. Nunca me tinha apercebido de como era feio. O olhar dele, dantes, era malicioso e atingia-nos com demasiada dureza, mas de resto, quando de saúde, possuía uma centelha que nos fazia esquecer a malícia. Havia algo de agradável e ao mesmo tempo de fogoso naquele brilho, como se dissesse “Sei que sou feio e dissimulado. Que importa? Se os tenho no sítio!” Era esse olhar que algumas mulheres acham atraente e estimulante. Agora que o perdera, parecia um patife e nada mais.

Pareceu-me que tinha o dever de o animar, por isso mandei-lhe uma piada sobre o facto de ele estar sozinho na cama. Não me pareceu que ele gostasse por aí além, e comecei a pensar se ele não estaria também a enveredar por um sentimento religioso da morte quando me mandou sentar com firmeza.

“Vou morrer”, disse-me, falando muito depressa, “por isso quero perguntar-te uma coisa. Aquele médico não vale nada, ainda ia pensar que eu estava a delirar. Estou cheio de medo, meu. Quero ter a certeza” e, depois duma longa pausa, “de alguém com bom senso.”

Deixou-se escorregar um pouco mais para baixo e disse: “Só uma vez é que estive mesmo muito mal, antes sequer de teres chegado cá. Na altura, eu era um rapaz. As pessoas dizem que eu era para estar morto. Levavam-me para ser enterrado quando o médico os impediu mesmo a tempo”.

Tinha ouvido falar de montes de casos como esse, por isso não vi porque me estava ele a contar tal coisa. Foi só depois que percebi. Na altura, a mãe dele não se importou muito em certificar-se de que ele estivesse mesmo morto, embora tenho a certeza que deve tê-lo demonstrado com grande aparato: Meu pobre filho, o que hei-de fazer sem ele... Estou certo de que ela tinha a certeza naquela altura, assim como tem a certeza agora. Não era nenhuma criminosa, apenas tinha tendência para se precipitar.

“Ouve lá, meu”, disse-lhe, enquanto o ajudava a içar-se um pouco na almofada, “não tens nada que estar inquieto. Não vais nada morrer e, mesmo que fosses, eu próprio pediria ao médico para te cortar uma veia, ou outra coisa qualquer, antes de te levarem. Mas isso é só paleio mórbido. Apostava a minha camisa em como tens ainda muitos anos pela frente. E muitas raparigas também”, acrescentei, para o fazer rir.

“Não podes parar com isso?”, disse ele, e foi só aí que tive a certeza que ele se tinha tornado religioso. “Bem...”, continuou ele, “se eu sobrevivesse, nunca mais tocava numa rapariga, nem uma sequer!”.

Tentei reprimir o riso, mas não foi fácil ficar sério. Há sempre algo de cómico no moral de uma pessoa doente. “Seja como for”, disse, “não deves estar inquieto.”

“Não é isso”, respondeu ele. “Meu, quando vim a mim daquela vez, pensei que tinha estado morto. Era muito diferente do sono. Ou de descansar em paz. Havia lá sempre alguém à minha volta que sabia tudo. Todas as raparigas que eu tive. Mesmo a mais novinha, a que não percebeu nada. Foi antes de tu chegares. Ela morava um quilómetro mais abaixo, onde mora agora a Raquel, até que depois ela e a família se foram embora. Mesmo o dinheiro que tirei à minha mãe. Não é que seja um roubo, mas está-nos no sangue. Nunca tive tempo de explicar. Todos os pensamentos que tive. Não podem evitar-se, os pensamentos”.

“Foi um pesadelo, então”.

“Sim, deve ter sido, acho eu. Daqueles sonhos que se têm quando estamos doentes. E eu via o que me estava a acontecer. E não podia evitar o sofrimento. Não era justo. E queria desmaiar mas não podia, porque estava morto”.

“Estavas morto no sonho”, disse-lhe eu. A inquietação dele fazia-me mal. “No sonho”, repeti-lhe.

“Sim, deve ter sido um sonho, não achas? Porque depois, acordei. E o mais curioso é que me sentia forte e saudável. Levantei-me e sentei-me no chão e, mais abaixo, levantando o pó do caminho, afastava-se uma pequena multidão atrás dum homem, o médico que impediu que me enterrassem”.

“Sim, e...?”, indaguei.

“Meu”, disse ele, “supõe tu que fosse verdade. Supõe que estive mesmo morto. Na altura foi o que pensei, até mesmo a minha mãe, embora ela não seja de fiar. Durante uma data de anos andei direitinho. Sempre pensei que tinha tido uma espécie de segunda oportunidade. Logo, tudo se desvaneceu e depois... não parecia que fosse possível. Não era possível. Claro que não é possível. Tu sabes que não é, não sabes?”

“É claro que não”, respondi. “Milagres assim não acontecem hoje em dia. De resto, não me parece que fossem acontecer-te a ti, pois não? E logo numa terreola como esta”.

“Seria terrível se fosse verdade”, disse-me, “e tivesse que passar por tudo aquilo de novo. Tu não sabes o que iria acontecer-me a seguir, no meu sonho. E agora ainda ia ser pior”. Fez uma pausa e a seguir acrescentou, como se estivesse a demonstrar um facto: “Quando estamos mortos não há mais inconsciência possível, para sempre”.

“Claro que foi um sonho”, disse eu, apertando-lhe a mão. Estava a ficar assustado com as suas fantasias. Oxalá ele morresse depressa, para ficar longe daquele olhar astuto, sanguíneo e aterrorizado e ver antes algo alegre e benfazejo, como a Raquel que ele mencionara, um quilómetro mais abaixo.

“Então”, disse-lhe eu, “se tivesse havido alguém a fazer milagres como esse homem, de certeza que teríamos ouvido falar doutros mais, podes ter a certeza. Mesmo desterrados neste lugar esquecido por Deus”.

“Houve outros mais”, disse ele, “mas essas histórias só corriam entre os pobres, e gente pobre acredita em tudo, não é? Diziam que houve montes de gente doente e estropiada que foram curados. E até houve um homem que nasceu cego e, quando ele veio tocar-lhe nos olhos, voltou a ver. Não podem ser histórias da carochinha, pois não?” perguntou, transido de pavor, para logo a seguir cair imóvel e aninhar-se na beira da cama.

“Claro que é tudo mentira”, comecei por dizer, mas parei a tempo, porque não foi preciso prosseguir. Tudo o que podia fazer era descer as escadas e dizer à mãe que lhe fosse lá acima fechar os olhos. Não lhes teria tocado nem por todo o dinheiro deste mundo. Já há muito, muito tempo, que não me lembrava daquele dia, há séculos!, quando sentira um líquido frio como se fosse saliva nas minhas pálpebras e, ao abrir os olhos, vira um homem como se fosse uma árvore rodeado por outras árvores, a afastar-se(1).

https://rudecruz.com/milagres/o-filho-da-viuva-de-naim/.

(1) O milagre da ressurreição do filho da viúva de Naim por Jesus é apenas narrado por S. Lucas, 7:11-17 e antecede cronologicamente o da cura do cego de Betsaida, apenas narrado por S. Marcos, 8:22-26 [n. t.].

1929

[editado em 1947 no Reino Unido sob o título Nineteen Stories por William Heinemann Ltd.; editado em 1954 no Reino Unido sob o título Twenty-One Stories por William Heinemann Ltd.; editado em 1970 no Reino Unido sob o título Twenty-One Stories pela Penguin Books; reeditado em 1982 no Reino Unido sob o título Twenty-One Stories pela Penguin Books (presente edição, pp.186-191)]

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