• Tomaz Ponce Dentinho

A Singeleza do Fado

Miguel de Castelo-Branco, Fajã de Baixo, São Miguel (2013)

https://www.youtube.com/watch?v=0DbUT5CaFxM

Dizem os da velha guarda, e não são poucos, afirmaria mesmo quase todos, fadistas, guitarristas e violistas, poetas e compositores que o Fado, a ser genuíno, deve ser triste ou, pelo menos, ter um pendor para a tristeza ou nostalgia. Eu sou uns anos mais novo que essa geração de maior experiência no Fado, nunca cantei, não toco viola nem guitarra e poeta sou às vezes diletante. Não sou do meio mas gosto muito de Fado, oiço todos os dias em casa, já corri Alfama e Mouraria, Bairro Alto e Madragoa, Santa Isabel e Alcântara muita vez e devo dizer que tenho de concordar. E porquê?

As letras de Fado, que se distribuem entre o Fado Tradicional e todos os outros fados cantados no que se chama Fado de Música Própria ou Fado Musicado, versam vários temas. Falando no Fado Tradicional, o de reportório mais vasto e conhecido, o mais comum é encontrarmos versos de sete sílabas arranjados em quadras, quintilhas ou sextilhas e cantados em música fixa, isto é, em dezenas e dezenas de arranjos harmónicos já pré-estabelecidos e conhecidos dos acompanhantes há gerações, o que poupa muitas dores de cabeça e tempo de ensaio a quem canta e acompanha. Podem então o fadista e os músicos entreter a comitiva com uma letra já imortalizada no passado por uma Amália ou um Marceneiro, em melodia diferente de outra harmonia fixa , que embala o ouvido conhecedor, ou cantar uma nova letra no mesmo arranjo musical de outrora. Em qualquer dos casos, não é preciso ensaiar muito e toda a gente se diverte.

Os fados de música fixa no Fado Tradicional adquirem assim cada um deles o seu nome, que os identifica imediatamente a guitarristas e violistas, sempre prontos a acompanhar - com todo o à vontade e rigor e sem dificuldade - qualquer letra, às vezes desconhecida, como é tão corrente no Fado Vadio. Assim, é vulgar ouvir-se, como exemplos, cantar-se o “Fria Claridade” no Pedro Rodrigues ou em José Marques do Amaral, “O Fado do Cartaz” na Marcha do Marceneiro, “O Serão da Virgem” no Vianinha, “O Dia de Alternativa” no Seixal, “O Leilão da Mariquinhas” no Mouraria , “Os Colchetes de Oiro” no Corrido ou o “Fui reviver o Passado” no Pechincha. E quando se ouve a expressão “Canto isto no Fado Magala ou no Isabel”, as designações referem-se sempre à música e nunca à letra, para dar o mote aos acompanhantes. Outra característica que se observa no Fado Tradicional é que este nunca tem Estribilho ou Refrão, tão comum no Fado Musicado ou Fado de Música Própria como são, por exemplo, os casos do Fado de Revista ou Fado-canção.

Estes ambientes propiciam a que se encontre nas fadistices, sobretudo nas tertúlias com muitos portugueses apreciadores e poucos turistas – são as melhores – que vão sendo já raras, Fado de qualidade variável, onde aparecem as gentes mais heterogéneas possíveis, entre os quais amadores de todas as origens e profissões. Desta cumplicidade saem por vezes novas letras muito bem esgalhadas para o verso heptassílabo e em que toda essa poesia espontânea parece comungar dos mesmos valores que deram origem aos temas mais ouvidos no Fado, de ontem e de hoje. As vozes cantam o amor, a saudade, o amor não correspondido, o ciúme, lembranças de exílio ou diáspora, as saudades da Pátria, as conquistas dos navegantes e dos cavaleiros de outrora, a vida de pescadores e marinheiros, as toiradas e campinos, a relação entre fidalgos e rameiras, etc. Ou temas mais leves, que falam da vida do campo ou da cidade, a rua onde nascemos e muitos outros. Mas se não são temas tristes, deixam sempre no ar uma ponta de mistério, um final menos feliz ou alguma melancolia, o que leva a geração mais velha de entendidos do Fado a acharem que a Canção de Lisboa é triste e que assim o deve ser, o que, face à evidência musical e poética no contexto histórico do Fado, é de uma clareza gritante. Mas são tudo histórias e temas que têm afinidade com qualquer português, seja ele professor, pedreiro ou doutor, plebeu ou fidalgo e seja ela lavadeira, camponesa ou marquesa. São histórias velhinhas. Como a alma deste país.

Por isso é que o Fado Tradicional, que existe já há gerações, tem na singeleza uma das suas grandes virtudes e belezas: permite liberdade poética total, dentro de uma estrutura simples, perfeitamente adaptada a uma vasta coleção de harmonias instrumentais já conhecidas. E não se pense que isto seja restritivo, tendo em conta que as variações são comuns e bem-vindas, dando origem a nomes que deixaram fama na história, pela maneira de Estilar, no caso dos fadistas, ou de Estilizar, no caso dos guitarristas.

É também voz corrente, quase à laia de regra entre a geração mais velha, que “há tons de homem e tons de mulher”, ou seja, os homens devem cantar os fados maiores nos tons de sol ou lá – onde os tenores estão à vontade - e as mulheres em ré ou mi para aquelas mesmas escalas, tons estes que servem melhor às sopranos. Esta é uma regra tradicional um tanto arcaica e que deixa pouco espaço para a expressão natural das vozes mais graves. Felizmente, a perspetiva atual não é tão rígida, havendo quem cante em tons diferentes daqueles mas que são, no fundo, mais naturais ao registo e timbre das vozes menos agudas, como são as meio-sopranos e contraltos ou os barítonos e baixos. Canta-se assim com a voz mais bem colocada e evita-se o “esticá-la” demasiado, correndo o risco de a danificar com o tempo.

Tendo aqui defendido a tese de que o Fado é belo, rico, de estrutura simples e triste, também sou apologista da pureza instrumental. Até aos anos sessenta, o Fado era acompanhado somente à guitarra e à viola, de forma que o terceiro instrumento, a viola-baixo, é relativamente recente, tendo sido introduzido sobretudo no tempo do conjunto de guitarras de Raul Nery e a sua aceitação e difusão no meio devem-se principalmente à maestria, dedicação, exemplo e seguidores do Prof. Joel Pina. Este é um acompanhamento do melhor gosto e técnica, pois permite dar à guitarra – que não acompanha apenas, tendo sim um papel melódico, distinto e desafiante, tão protagonista como o de quem canta – e à viola um conjunto de bordões de apoio a quatro cordas, geralmente com a viola-baixo afinada a uma oitava mais grave do que a sua “irmã” tradicional de seis cordas, a velhinha viola ou guitarra clássica.

Perante estas fórmulas, a que assistiram gerações no seu desenvolvimento, não vejo onde está o mérito ou sequer o gosto de alguns “génios” da atualidade que se dizem fadistas mas que, em meu entender, só revelam manias e vícios de protagonismo efémero, ao introduzirem orquestras a acompanhar, cantarem ao piano ou solicitarem para junto do trio de guitarras um trompete, clarinete ou saxofone. Que virá a seguir? Percussão com xilofone? Esta anarquia instrumental não faz parte do Fado com certeza. Nem do Património Imaterial. Tudo isto é geralmente típico da imodéstia egocêntrica de cançonetistas que levaram toda uma vida a tentarem ser fadistas…

Espero que a tendência predominante do Fado no século XXI seja a de continuar a desenvolver o que o Fado tem de bom, pelas vozes e pelas mãos de toda essa gente com tanto valor da nova geração, com a devida vénia de gratidão ao enorme contributo e liderança dos mais velhos. Assim, todos juntos, fadistas, guitarristas e violistas, compositores e poetas – e porque não o público - poderão projetar com responsabilidade para fora como Património Imaterial da Humanidade a verdadeira “Canção de Lisboa”. E não uma trapalhice qualquer, em nome da suposta facilidade de a fazer chegar aos ouvidos de japoneses, americanos ou alemães, com a subjacente advocacia da defesa dos interesses das gravadoras e da algibeira dos artistas…

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