• Tomaz Ponce Dentinho

Albert Camus (1913-1960) Discurso ao receber o Prémio Nobel em 1957, Tradução de José Maria Saldanha


“Vossas Excelências, Vossas Altezas Reais, Senhoras e Senhores,

“Ao receber a distinção com a qual a vossa livre Academia tão generosamente me honrou, a minha gratidão foi tão mais profunda ao considerar a extensão com que esta recompensa ultrapassa os meus méritos pessoais. Todo o homem e, em especial, todo o artista, quer ser reconhecido. É meu desejo também. Mas não me foi possível apreender a vossa decisão sem comparar o seu impacto ao que eu realmente sou. Como um homem ainda jovem, rico apenas nas suas dúvidas e com a sua obra ainda em marcha, acostumado a viver na solidão do trabalho ou no retiro da amizade, como não sentiria este homem uma espécie de pânico ao ouvir o decreto que o transporta subitamente, sozinho e reduzido a si mesmo, ao centro de uma luz ofuscante? E com que sentimentos poderia aceitar ele esta honra se, neste momento, na Europa, outros autores, entre estes os maiores, estão reduzidos ao silêncio, e se, ao mesmo tempo, a sua terra natal vem conhecendo um interminável infortúnio? Eu experimentei essa confusão e agitação interior. Para recuperar a paz, foi necessário, em suma, colocar-me em linha com essa sorte tão generosa. E, já que não posso rivalizar com ela apoiando-me somente nos meus méritos, não achei nada mais para me ajudar senão aquilo que me sustentou durante toda a vida e nas circunstâncias mais adversas: a ideia que tenho da minha arte e do papel do escritor. Permiti somente que, num sentimento de reconhecimento e amizade, vos diga, da maneira mais simples de que sou capaz, que ideia é esta.

“Pessoalmente, eu não posso viver sem a minha arte. Mas jamais coloquei essa arte acima de todo o resto. Se, em compensação, dela necessito, é porque não está separada de ninguém e me permite viver, tal como sou, no mesmo nível dos demais. A arte não é, a meu ver, um divertimento solitário. É um meio de comover o maior número de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada do sofrimento e das alegrias comuns. Ela, pois, obriga o artista a não se isolar e submete-o à verdade mais humilde e mais universal. E aqueles que muitas vezes escolhem o seu destino de artista porque se sentem diferentes, logo aprendem que alimentam a sua arte, e a sua diferença, ao admitir a sua semelhança com todos. O artista forja-se no perpétuo retorno ao outro, a meio caminho da beleza, da qual não pode abster-se, e da comunidade, da qual não pode fugir. É por isto que os verdadeiros artistas não menosprezam nada: eles obrigam-se a entender em vez de julgar. E se eles têm um partido a tomar neste mundo, que possa ser aquele cuja sociedade, nas palavras de Nietzsche, não seja governada por um juiz, mas por um criador, seja ele um operário ou um intelectual.

“O papel do escritor, ao mesmo tempo, não está separado dos deveres difíceis. Por definição, ele não pode colocar-se, hoje, ao serviço daqueles que fazem a história: ele está ao serviço daqueles que a sofrem. De contrário, eis que estará só e privado da sua arte. Todos os exércitos da tirania, com os seus milhões de homens, não o libertarão da solidão, mesmo e sobretudo se ele concordar em caminhar junto deles. Mas o silêncio de um prisioneiro desconhecido, abandonado às humilhações no outro extremo do mundo, ao menos basta para retirar o escritor do exílio cada vez que ele consegue, em meio aos privilégios da liberdade, não se esquecer desse silêncio e transmiti-lo, repercutindo-o por meio da arte.

“Nenhum de nós é suficientemente grande para essa vocação. Mas, em todas as circunstâncias da sua vida, obscura ou provisoriamente célebre, lançado aos ferros da tirania ou momentaneamente livre para se exprimir, o escritor pode reencontrar o sentimento de uma comunidade viva que o justificará, com a única condição de aceitar, na medida do possível, as duas obrigações que fazem a grandeza do seu ofício: o serviço à verdade e à

liberdade. Já que a sua vocação é reunir o maior número possível de homens, esta não pode acomodar-se às mentiras e à servidão que, onde quer que governem, fazem proliferar o isolamento e a solidão. Sejam quais forem as nossas fraquezas pessoais, a nobreza da nossa tarefa terá sempre raízes em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos, e a resistência à opressão.

“Durante mais de vinte anos de uma história demente, abandonado sem socorro, como todos os homens da minha idade, nas convulsões da época, fui amparado assim: pela obscura sensação de que escrever nos dias de hoje era uma honra, porque este acto não me obrigava apenas a escrever. Obrigava-me em particular a suportar, tal como eu era e segundo as minhas forças, com todos aqueles que viveram a mesma história, o sofrimento e a esperança que compartilhávamos. Esses homens, nascidos no início da Primeira Guerra Mundial, que tinham vinte anos quando da chegada de Hitler ao poder e dos primeiros processos revolucionários, que foram posteriormente confrontados, para completar a sua educação, com a guerra de Espanha, com a Segunda Guerra Mundial, com o universo dos campos de concentração, com a Europa das torturas e prisões, devem agora criar os seus filhos e as suas obras num mundo ameaçado pela destruição nuclear. Ninguém, suponho, lhes pode exigir que sejam optimistas. E sou mesmo da opinião que devemos compreender, sem cessar de combatê-los, os erros daqueles que, por um lance do desespero, têm reivindicado o direito à desonra e se precipitam no niilismo da época. Mas a verdade é que a maioria de nós, no meu país e na Europa, tem recusado esse niilismo e já se colocou em busca de uma legitimidade. Foi preciso desenvolver uma arte de viver para esses tempos de catástrofe, para nascer uma segunda vez e, em seguida, lutar francamente contra o instinto de morte na obra da nossa história.

“Cada geração sente-se, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela própria e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir das suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer. Ante um mundo ameaçado pela desintegração, onde os nossos grandes inquisidores tentam estabelecer definitivamente o reinado da morte, ela sabe que deve, numa espécie de corrida maluca contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz (que não é aquela da servidão), conciliar novamente o trabalho e a cultura, e recriar entre todos os homens uma Arca de Aliança. Não há garantias de que ela possa cumprir essa tarefa imensa, mas é certo de que, em qualquer lugar do mundo, ela tem já o desafio duplo da verdade e da liberdade, e, ocasionalmente, sabe morrer por ele, sem ódio. É ela que merece ser saudada e encorajada onde quer que se encontre, sobretudo lá onde ela se sacrifica. De qualquer forma, é a ela que, seguro do vosso acordo profundo, gostaria de transferir essa honra que ora me tendes outorgado.

“Ao mesmo tempo, após haver ressaltado a nobreza do ofício de escrever, eu teria de devolver o escritor à sua verdadeira posição, não tendo outros títulos senão estes que ele compartilha com os seus companheiros de luta: vulnerável mas obstinado, injusto e apaixonado pela justiça, edificando a sua obra sem vergonha ou orgulho à vista de todos, sem deixar de se dividir entre a dor e a beleza, e dedicado enfim a extrair do seu ser duplo as criações que ele tenta construir obstinadamente no movimento destrutivo da história. Dito isso, quem poderia esperar dele soluções acabadas e beleza moral? A verdade é misteriosa, fugidia, e está sempre a ser conquistada. A liberdade é perigosa, e tão dura de desfrutar quanto estimulante. Devemos caminhar em direção a esses dois objetivos, dolorosa mas decididamente, cientes, de antemão, das nossas falhas em tão longo percurso. De agora em diante, que escritor ousaria, de boa consciência, ser um pregador da virtude? Quanto a mim, devo dizer uma vez mais que nada tenho com essa posição. Jamais pude renunciar à luz, à felicidade de existir, à vida de liberdade em que cresci. Mais certo é afirmar que esta nostalgia explica muitos dos meus erros e faltas, e certamente me ajudou a compreender melhor o meu ofício; ela ainda me auxilia a manter-me, cegamente, junto a todos esses homens silenciosos que não suportam, mundo afora, a vida que lhes coube senão através das lembranças e dos retornos a esses breves e livres momentos de felicidade.

“Reduzido, portanto, a isto que realmente sou, aos meus limites, às minhas obrigações morais, assim como à minha fé exigente, sinto-me mais livre para vos demonstrar, por fim, o alcance e a generosidade da distinção que vós viestes conceder-me, mais livre para vos dizer também que gostaria de recebê-la como uma homenagem a todos aqueles que, partilhando da mesma luta, não receberam qualquer privilégio, senão que, ao contrário, conheceram o infortúnio e a perseguição. Resta-me então agradecer-vos, do fundo do meu coração, e fazer-vos publicamente, como testemunho pessoal de gratidão, a mesma e velha promessa de fidelidade que cada verdadeiro artista, a cada dia, faz a si próprio, no silêncio.”

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