• Félix Rodrigues

Análise diária da infecção por SARS-CoV-2 em Portugal: 3 de Julho de 2020

Parece que a decisão dos Britânicos de hoje afetou muito os portugueses de tal modo que a comunicação dos dados oficiais da SARS-CoV-2 foi muito tardia: 374 novos casos no país e mais 11 óbitos. Os óbitos diários têm estado a aumentar como se previa.

Ultrapassamos a fasquia dos 43 000 infetados (43156) e acumulamos 1598 óbitos. Tudo indica que o crescimento dos novos casos de SARS-CoV-2 em Portugal, naquilo que se pode designar por nova onda, pós-desconfinamento, já estivesse nimimamente controlada, mas de facto não está.

Afinal não fui só eu que reparou num efeito de fim de semana nos dados, pois parece que Fernando Medina reparou hoje nisso com esse novo crescimento.

Andamos neste momento mais atrás de turistas do que de infetados no país.

Consta que Portugal continental ficou hoje fora do corredor turístico do Reino Unido, mas os Açores e a Madeira diz-se estarem na lista de 59 países publicada esta sexta-feira pelo governo de Boris Johnson. Fica-se sem saber se os britânicos poderão voar sem necessidade de ficarem 14 dias em quarentena no regresso a casa quando saírem dos Açores e Madeira. Se vierem aos Açores espero que se comportem bem, porque nós por aqui temos sido bem comportados e também achamos que devíamos ter uma lista acerca dos britânicos que deveremos deixar entrar.

Os Açores e Madeira não são países, fazem parte de Portugal, e se estão na lista significa que os Britânicos podem de facto voar para Portugal sem ter que fazer quarentena no regresso, mas o governo português diz que não foi isso que lhe disseram. Ainda não percebemos que o governo britânico é um governo “trumpnizado”, pelo menos na geografia? Ou que o nosso governo passa a vida a apanhar bonés? Por outro lado, isso demonstra como de facto todos somos afetados pelo que se passa na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Portugal não foi penalizado por falar a verdade. Aqui não há penalizações, há acima de tudo confiança ou falta dela. E Portugal deverá ter confiança nos turistas ingleses depois das estratégias de combate à pandemia que usaram e dos comportamentos que tiveram? Acima de tudo está a saúde dos portugueses. Tudo o que fazemos, bem feito ou mal feito, tem consequências.

A nível internacional verificamos que de um dia para o outro Portugal é ultrapassado em número de infeções pelo Cazaquistão (com 18,28 milhões de habitantes), que no dia 20 de Junho tinha apenas 22308 infetados e só ontem atualizou os números, passando a ter 42574 casos de infeção. A letalidade do vírus nesse país é muito baixa (188 óbitos), mas suspeita-se que não haja sequer qualquer contabilização adequada dos óbitos. Essa gente é imune? Claro que não o deve ser, não tem forma sequer de o saber.

Que não passe pela cabeça de Portugal começar a esconder números como o Cazaquistão, em nome do turismo.

O mundo terá muito brevemente 11 milhões de infetados.

Há possibilidades de quem já foi infetado ser reinfectado? Essa é uma pergunta interessante que entronca na lógica de imunidade de grupo britânica.

Um estudo publicado na Nature referente a uma análise de 5.484 casos de infeções por SARS-CoV-2 na Lombardia, Itália, revela que aproximadamente metade dos contatos com pessoas infetadas foram infectados. No entanto, 73,9% de todos os indivíduos infectados com menos de 60 anos não apresentaram sintomas. O risco de sintomas aumentou com a idade - 6,6% dos indivíduos infectados com mais de 60 anos tinham doença crítica. Mas esse estudo também revelou que 28% de dadores de sangue do grupo estudado e que foram infectados pelo vírus, apresentaram níveis mais baixos de anticorpos específicos para SARS-CoV-2 em comparação com pacientes convalescentes. Isso também foi verificado noutros estudos.

Uma equipa médica chinesa estudou 37 indivíduos que foram diagnosticados por RT – PCR para infecção por SARS-CoV-2, mas sem sintomas clínicos relevantes. O grupo de assintomáticos estudado apresentou níveis mais baixos de anticorpos na fase aguda da infecção do que os sintomáticos. Dois meses após deixarem o hospital, os níveis de anticorpos diminuíram em ambos os grupos (sintomáticos e assintomáticos) e 40% dos indivíduos assintomáticos tornaram-se soronegativos para os anticorpos IgG.

Outro estudo com 149 pacientes convalescentes (a maioria com sintomas leves) mostrou que a maioria não apresentava altos níveis de anticorpos neutralizantes. No entanto, anticorpos raros, relacionados com atividade antiviral potente foram encontrados em todos os indivíduos testados, sugerindo que uma vacina projetada para obter tais anticorpos poderia ser amplamente eficaz.

Quem defende a imunidade de grupo deve ler atentamente todos os estudos.


Félix Rodrigues


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