• Tomaz Ponce Dentinho

Cancro nos Açores - Da entrevista de Raul Rego ao Diário dos Açores dia 28 de Novembro de 2020


1 – Atualmente, qual a dimensão do cancro nos Açores? Quantos casos de cancro estão diagnosticados na Região? Qual realidade do País e Europa?


A incidência de uma qualquer doença define-se como sendo o número de novos casos dessa doença ocorridos numa dada população num dado período de tempo, sendo a taxa referida por 100.000 habitantes.

Nos Açores, tendo em conta o Registo Oncológico de 20 anos consecutivos (1976-2016) registou-se uma taxa de incidência padronizada de 378,2 casos por cada 100 mil habitantes (exclui o cancro não melanoma da pele, normalmente não considerado nestes estudos estatísticos).

Em valor absoluto e considerando a média do período mais recente (quinquénio 2012/2016) temos nos Açores, 1070 novos casos de cancro por ano (exceto não melanoma da pele).

Se considerarmos o período de 20 anos de registo oncológico essa média é de 962 novos casos/ano. Se compararmos os 2 períodos, verificamos que ocorreu uma subida, em média, de 108 novos casos/ano. Tal deve-se ao aumento da esperança média de vida, sendo certo que a idade é considerada o principal fator de risco para a patologia oncológica. Este fenómeno é universal.

O mapa abaixo permite-nos a comparação da incidência de cancro nos Açores/Portugal Continental e Europa dos 28. Não conseguimos dados comparativos relativos ao cancro do pulmão. Em todo o caso, neste cancro, a Região está com indicadores muito piores que Portugal Continental e Europa devido à elevada taxa de tabagismo nos Açores.


Nos 5 casos em apreciação comparativa (taxa de incidência por 100 000 habitantes) conclui-se que:

- No cancro da cavidade oral a Região está pior que Portugal Continental e Europa;

- No cancro ao cólon e reto está melhor que a Europa e muito melhor que Portugal Continental;

- No cancro da mama feminina está melhor que Portugal Continental e muito melhor que a Europa;

- No cancro do colo do útero está pior numa e noutra comparação;

- No cancro da próstata está ligeiramente melhor que Portugal Continental e melhor que a Europa.

As patologias oncológicas onde os Açores registam pior resultado são, justamente, aquelas onde o tabaco mais se afirma como fator de risco. Em relação ao restante universo de cancros a Região estará próxima do nível do País e da Europa.


2 – Quais os cancros com maior incidência na Região?


Tendo em conta as médias do último quinquénio do registo oncológico nos Açores (2012/2016), o Ranking é:

1º Traqueia, Brônquios e Pulmão com média de 146 novos casos/ano;

2º Mama feminina com média de 132 novos casos/ano;

3º Colon e reto com média de 123 novos casos/ano;

4º Próstata com média de 107 novos casos/ano e,

5º Estômago com média de 55 novos casos/ano.

As cerca de 100 tipologias de cancro (o cancro classifica-se pela sua localização topográfica) registam uma média anual de 1070 novos casos/ano como se referiu atrás, sendo que, estes 5 mais incidentes, só por si, registam, em média, 563 novos casos/ano, o que representa mais de metade de toda a patologia oncológica nos Açores.


3 – A taxa de incidência do cancro é superior nos homens ou nas mulheres? Que razões explicam a realidade?


É superior nos homens. No universo da média de casos/ano nos Açores, no período 2012/2016, 612 são homens (57%) e 458 mulheres (43%).

Na tabela abaixo, condiram-se os 5 cancros mais incidentes. Neste caso temos que considerar as médias de 20 anos de registo oncológico (e não as médias dos últimos 5 anos atrás referidas), pois só temos informação relativa ao indicador mortalidade para os 20 anos.



As causas exatas do cancro são pouco conhecidas do cancro é, ainda hoje, pese embora ser “gigantesca” a investigação sobre esta temática.

Assim falamos em fatores de risco mais ou menos conhecidos e estudados, que são. Habitualmente, mais prevalentes no homem, nomeadamente o consumo do tabaco, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, menos exercício físico e alimentação menos adequada.


4 – Quais as potenciais razões por detrás dos cancros com maior incidência?


As razões conhecidas e universalmente aceites são, sobretudo, hábitos de vida não saudáveis, como consumo do tabaco, o consumo exagerado de álcool, o deficit de atividade física regular e a obesidade e a alimentação inadequada nomeadamente consumo baixo de frutas e vegetais.

Estima-se que o tabaco, só por si, seja responsável por cerca de um terço de toda a patologia oncológica e que os restantes fatores atrás referidos sejam responsáveis por outro terço. Ou seja, o adequado comportamento humano na preservação da saúde seria, provavelmente, o suficiente para prevenir/evitar 2/3 dos cancros que ocorrem.


5 – Dentro dos cancros com maior incidência, quais aqueles que poderiam ser mais evitados? Porquê?


Quase todos, nomeadamente aqueles em que os fatores de risco relacionados com hábitos de vida menos saudáveis são mais importantes:

- Pulmão e outros órgãos do sistema respiratório;

- Estômago, cólon e reto e outros órgãos do sistema digestivo;

- Rim, bexiga e outros órgãos do sistema urinário.


6 – Os rastreios são fundamentais para a deteção precoce. Antes da pandemia que rastreios estavam a ser desenvolvidos e em perspetiva? Qual o impacto da Pandemia na realização destes rastreios?


A deteção precoce, como refere e bem, é importantíssima para reduzir o sofrimento humano e a mortalidade tendo, também, um impacto muito positivo em termos económicos – o custo do tratamento de um cancro em estadio avançado, pode ultrapassar os 100 mil euros à sociedade.

Os programas organizados de rastreio oncológico que desenvolvemos nos Açores são os recomendados pela União Europeia – mama feminina; colo do útero e cólon e reto. Além destes, desenvolvemos, também, uma iniciativa pioneira – rastreio do cancro na cavidade oral, já com 4 anos de vida, o que nos permite afirmar que foi uma aposta ganha. Temos ainda, um estudo para avaliar a possibilidade de desenvolver um 5º programa de saúde pública de rastreio oncológico – o rastreio ao cancro do pulmão.

A nova conjuntura sanitária foi um forte revés aos nossos rastreios. Provocou a paragem no trimestre março/abril/maio 2020 e condicionou, de forma significativa, as retomas, reduzindo a sua produção e produtividade, fruto dos planos de contingência e medidas cautelares que fomos forçados a adotar. Além disso os 4 programas de rastreio têm uma forte interação com todas as outras instituições do Serviço Regional de Saúde – Unidades de Saúde de Ilha a montante nos processos de convocação e execução dos exames de referência e Hospitais Regionais a jusante nos processos de aferição. Uns e outros estão com envolvimento, emergente, no combate à Pandemia. Em 2019 rastreámos 37000 utentes. Em 2020 vamos ficar pelos 20 000. O, inevitável, impacto desta situação será visualizado a curto prazo, numa apresentação clínica mais tardia e, a médio prazo, numa diminuição da sobrevivência e em algum aumento da mortalidade. As queixas, legítimas, que nos chegam, por parte de alguns utentes envolvidos, são crescentes e preocupantes.


7 – Que medidas estão a ser adotadas para sensibilizar a população na prevenção contra o cancro?


Estamos perante novos desafios. Urge recuperar e readaptar.

Temos algumas ideias para submeter e partilhar com a nova tutela. Ideias que apontam para a reativação das apetências sociais; para aperfeiçoar os manuais executivos dos programas de rastreio e correspondente modelo operacional; para intensificar o compromisso com as instituições e interlocutores envolvidos; para reduzir as demoras médias de resposta nas diversas etapas, nomeadamente na resposta hospitalar. Em suma, para aperfeiçoar e consolidar este complexo processo da prevenção secundária da patologia oncológica nos Açores, que a todos obriga (população; instituições e seus profissionais e órgãos de comunicação social).

A pandemia instigou-nos a repensar tudo e desafia-nos a arregaçar mais as mangas.

(texto enviado por Luís Brito de Azevedo)

45 visualizações
acda_cubo.png

Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores
Canada de Belém

TERINOV - Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira - Sala B4

9700-702 Terra Chã, Angra do Heroísmo

NEWSLETTER

  • White Facebook Icon
  • White LinkedIn Icon
  • White Twitter Icon

© Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores