• Jornal Digital ACDA

Cem dias de pandemia em Portugal

No próximo dia 11 de Junho de 2020 contam-se cem dias após o primeiro caso de infeção por SARS-CoV-2 em Portugal.

Costumam-se avaliar desempenhos de governos nos primeiros 100 dias do seu mandato, mas aqui avaliar-se-á, ou resumir-se-á o que se fez em Portugal como coletividade para combater uma pandemia a uma escala tal, que poucos são os vivos que experienciaram algo semelhante. Assim, não havia no mundo qualquer prática conhecida e moderna para lidar com o vírus, com exceção da matemática.

Andávamos todos tão embrenhados com os pequenos problemas do nosso dia-a-dia, cada um no seu país, que nem ligámos ao que se passava na China, depois na Coreia, Macau, Hong- Kong, e até na próxima Itália. Despertamos todos muito tarde para o assunto, e quando o fizemos apareceram uns quantos epidemiologistas a desvalorizar a doença, as vidas que ela afetava ou os impactos que tal pandemia teria na nossa vida e na economia. Não se usava matemática ou modelos, mas apenas se exibiam títulos académicos. Aparenta não haver consequências para quem erra, nem também para quem acerta, como se tudo fosse uma lotaria. Em ciência não assenta no mérito dos títulos, mas na solidez das suas soluções.

O crescimento de uma doença epidémica é exponencial no início e só pára se nalgum

momento deixarmos de interagir entre nós, ou arranjarmos alguma coisa que a combata,

como uma vacina, um medicamento que anule os efeitos da doença que provoca ou um

poderoso desinfetante. Os modelos logísticos tendem para um máximo que corresponde a se ter atingido a imunidade de grupo e isso depende da “virulência” do agente, do

comportamento biológico do indivíduo infetado, do tempo de incubação da doença e do

tempo que uma dada pessoa leva a curar-se ou a criar anticorpos. Quando pouco se conhece sobre esses parâmetros a previsão torna-se muito difícil, especialmente lhe associarmos comportamentos humanos. Há países que apostaram nessa estratégia e depois alteraram-na, como foi o caso do Reino Unido e da Suécia.

Percebendo isso, as primeiras reações em Portugal foram as das Universidades que fecharam as portas numa altura importantíssima para baixar a designada curva epidemiológica. Se não o tivessem feito e continuássemos com a tendência da curva a azul da figura 1, hoje teríamos imunidade de grupo e o vírus já seria endémico. Isso parece bem, mas quanto nos custaria? Vamos analisá-lo em pessoas:

-Estaríamos hoje com seis milhões de infetados, onde 1 milhão deles teria tido necessidade de cuidados médicos e 258 000 de pessoas teriam precisado de cuidados intensivos. Com tais números nenhum deles recuperaria por falta de médicos ou condições de saúde.

Independentemente disso, teríamos uma letalidade que se situaria pelo menos ao nível da dos Estados Unidos ou do Reino Unido que acabaram por ir um pouco por esse caminho. Isso dar- nos-ia algo com 840 000 mortes em Portugal nestes últimos 100 dias. Isso implicaria que a sociedade portuguesa encararia o vírus como uma gripe e continuaria a fazer o que sempre fez. Tal de facto não aconteceria porque as pessoas tenderiam naturalmente a proteger-se mas não perceberiam como protegeriam os outros.

O Estado entendeu o problema, mas não os números, e decretou o Estado de Emergência. Começamos então com a tendência da linha Cor-de-vinho que tem um crescimento mais lento, mas continuava a crescer sem controlo. Nesse “estado de emergência”, começamos a baixar a curva epidemiológica e a ver que de facto estávamos a controlar razoavelmente a infeção. Se tivéssemos continuado por aí, teríamos na atualidade cerca de 1 milhão de pessoas infetadas, 180000 a necessitar de cuidados de saúde e 7560 a necessitar de cuidados intensivos. Ora com o nosso sistema de saúde a maioria morreria por falta de pessoal médico e a letalidade seria no mínimo em torno dos 10%. Estaríamos a falar de uma perda de vidas da ordem dos 100 000 óbitos, um número idêntico ao dos Estados Unidos na atualidade, mas com uma população muito maior do que a nossa. Talvez por isso, se tenha mantido o segundo Estado de Emergência por mais 15 dias para evitar esse dano, enquanto alguns começavam a ficar irritados e a chamar a tudo isso uma gripezinha, doença dos velhinhos, etc. Se tivéssemos saído do estado epidemiológico logo após o primeiro Estado de Emergência, estávamos a falar de uma perda de 3000 jovens e crianças com idades inferiores aos 18 anos nestes últimos 100 dias. Isso já parece muito, mas de facto é pouco no meio de 100 000 mortes que se acrescentaria áquilo que é a mortalidade usual (cerca de 25 000 óbitos por cada 100 dias).

Após o primeiro Estado de Emergência e do que aparentavam ser bons resultados no “achatamento da curva epidemiológica portuguesa”, como sociedade, titubeámos no início do segundo, seguindo a tendência definida pela curva a verde. Se assim continuássemos estaríamos hoje com cerca de 250 000 infetados, com 45000 pessoas a necessitar de cuidados intensivos e impossibilitados de os fornecer. Nesse período teriam ocorrido 17500 óbitos, mesmo assim um número muito inferior aos que se registaram na Itália, Espanha, França e Reino Unido. Apercebemo-nos coletivamente que ainda teríamos que ir mais longe no achatamento da curva e entramos na tendência definida pela linha cor-de-laranja. Se a

tivéssemos seguido estaríamos hoje com cerca de 60 000 infetados e cerca de 3000 mortes.

Entramos no Estado de Calamidade que se traduz na tendência a negro e que nos levaria a um equilíbrio epidemiológico e controlo da situação onde estaríamos com cerca de 32000 infetados e 1376 óbitos. Antes de chegarmos a esse ponto, começamos o desconfinamento e passamos a entrar na tendência a vermelho, o que significa que entramos numa segunda vaga, que se espera que seja reduzida, mas que é verdadeiramente preocupante. Hoje (9/6/2020) temos acumulado no país 35336 casos de infeção, o que significa que não atingimos o patamar da estabilidade e o número de óbitos também são superiores aos estimados para esse equilíbrio epidemiológico. São hoje 1492 óbitos.

Quando escrevo este artigo, falta um dia para o centésimo dia de infeção em Portugal. Para onde vamos 100 dias depois? Vamos no caminho de ter mais 35000 infetados daqui a 100 dias e mais 1530 óbitos, isso se a infeção não se descontrolar completamente.


Autor: Félix Rodrigues

Foto: Félix Rodrigues


82 visualizações
acda_cubo.png

Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores
Canada de Belém

TERINOV - Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira - Sala B4

9700-702 Terra Chã, Angra do Heroísmo

NEWSLETTER

  • White Facebook Icon
  • White LinkedIn Icon
  • White Twitter Icon

© Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores