• Félix Rodrigues

“Como Trump prejudicou a ciência - e por que pode ela levar décadas a recuperar”

Anteontem a revista Science publicou um artigo intitulado: “Como Trump prejudicou a ciência - e por que pode ela levar décadas a recuperar”.

Neste poste faz-se apenas uma pequena tradução do artigo, com os pontos chave, de um artigo que pode ser lido em “Nature 586, 190-194 (2020)” - doi: 10.1038/d41586-020-02800-9, sem deixar de fazer alguns comentários pessoais.

As ações do presidente dos EUA exacerbaram a pandemia que já matou mais de 200.000 pessoas nos Estados Unidos da América, reverteram as regulamentações ambientais e de saúde pública e minaram as instituições científicas que, sendo americanas, não deixam de ser do mundo. A ciência é global. Alguns dos danos podem ser permanentes.

Pessoas amontoaram-se aos milhares, muitas vestidas de vermelho, branco e azul empenhando cartazes com mensagens: “Mais quatro anos” ou “Torne a América Great Again”. Os manifestantes políticos saíram à rua durante uma pandemia global para fazerem uma declaração de apoio político, e só por isso é que que eles se colocaram ombro a ombro sem máscaras, criando um ambiente ideal para o SARS-CoV-2 se espalhar. Nada se compara com a organização da Festa do Avante, ou até mesmo com o incompreensível aglomerado em Fátima, onde aí, pelo menos as pessoas usaram máscaras.

O comício do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Henderson, Nevada, a 13 de setembro, infringiu as regras de saúde estaduais, que limitavam as reuniões públicas a 50 pessoas e exigiam distanciamento social adequado. Trump sabia disso e, mais tarde, gozou com o fato das autoridades estaduais não terem conseguido detê-lo. Desde o início da pandemia, o presidente americano comportou-se sempre da mesma forma e recusou-se a seguir as diretrizes básicas de saúde da própria Casa Branca, que agora está no centro de um surto de Covid-19. A 5 de outubro, o presidente estava num hospital militar a receber tratamentos experimentais. Ainda infetado meteu-se num veículo blindado, com a sua segurança, que se não estava infetada, agora já está. Isso ou é demência, ou teatro político absurdo ou, se fosse noutro país, seria crime.

Nos últimos oito meses, o presidente dos Estados Unidos mentiu constantemente sobre os perigos do novo coronavírus e minou os esforços para contê-lo. Até admitiu numa entrevista que intencionalmente deturpou a ameaça do vírus no início da pandemia. Trump menosprezou o uso de máscaras e os requisitos de distanciamento social, ao mesmo tempo que encorajava as pessoas a protestar contra as regras que designou de bloqueio destinadas a impedir a transmissão da doença. O seu governo minou, suprimiu e censurou cientistas do seu governo que trabalhavam no combate à pandemia. Os que ele indicou em substituição criaram ferramentas políticas, a partir dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e da Food and Drug Administration (FDA), ordenando a essas agências que divulgassem informações imprecisas, fornecessem orientações de saúde inadequadas e promovessem medicamentos e tratamentos não comprovados cientificamente e até prejudiciais a quem apanhou COVID-19.

“Isso não é apenas inépcia, é sabotagem”, diz Jeffrey Shaman, epidemiologista da Universidade de Columbia em Nova York, que modelou a evolução da pandemia que poderia ter salvado vidas nos Estados Unidos. Diz o autor que “Trump sabotou os esforços para manter as pessoas seguras.”

As estatísticas são nítidas. Os Estados Unidos, uma potência internacional com vastos recursos científicos e económicos, já tem mais de 7,5 milhões de casos COVID-19, e seu número de mortes ultrapassou 200.000 (211.000)- mais do que qualquer outra nação e mais de um quinto do total global, mesmo embora os Estados Unidos representem apenas 4% da população mundial.

Quantificar a responsabilidade de Trump por mortes e doenças em todo o país é difícil, e outros países que têm lutado para conter o vírus; como o Reino Unido tem um número semelhante de mortes aos Estados Unidos, relativamente ao total da população. Diga-se de passagem que no início Boris Johnson se comportou como Trump.

Na Campanha para a sua reeleição a 3 de novembro, as ações de Trump face à COVID-19 são apenas um exemplo dos danos que ele infligiu à ciência e às suas instituições científicas nos últimos quatro anos, com repercussões em número de vidas perdidas e meios de subsistência. Relativamente às Alterações Climáticas Globais, o presidente americano e os seus indicados também recuaram nos esforços para reduzir as emissões de gases com efeito estufa, enfraqueceram as regras que limitam a poluição e diminuíram o papel da ciência na Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Em muitas agências, a sua administração minou a integridade científica ao suprimir ou distorcer as evidências para apoiar decisões políticas, dizem vários especialistas em política.

“Nunca vi uma guerra tão orquestrada contra o ambiente ou a ciência”, disse Christine Todd Whitman, que chefiou a EPA sob a presidência do republicano George W. Bush.

Trump também corroeu a imagem da América a nível global através de políticas isolacionistas e retórica. Fechou as portas do país a muitos visitantes e imigrantes não europeus. Tornou os Estados Unidos menos apelativos a estudantes e investigadores estrangeiros. E ao demonizar as associações internacionais como a Organização Mundial da Saúde, Trump enfraqueceu a capacidade dos Estados Unidos em responder às crises globais e isolou a ciência do país.

A pandemia do novo coronavírus trouxe o perigo de ignorar a ciência e as evidências científicas, e uma coisa agora está clara: o presidente dos Estados Unidos entendeu que o vírus representava uma grande ameaça para o país no início do surto, e optou por mentir sobre isso.

Em entrevista dada ao jornalista Bob Woodward do Washington Post, a 7 de fevereiro, quando apenas 12 pessoas nos Estados Unidos tinham testado positivo para o coronavírus, Trump descreveu um vírus como sendo cinco vezes mais letal do que até mesmo a “gripe mais perigosa”, “Isso é mortal”, disse Trump na entrevista gravada, que foi lançada apenas em setembro.

Em público, porém, o presidente americano apresentou uma mensagem muito diferente. Em 10 de fevereiro, Trump disse a seus apoiantes, em um comício, para não se preocuparem, e disse que em abril, quando as temperaturas aumentassem, o vírus “milagrosamente iria desaparecer”. “É como uma gripe”, disse ele em uma entrevista dada a 26 de fevereiro. Noutra entrevista dada à televisão uma semana depois afirmou ser uma coisa “Muito leve.”

A 9 de março de 2020 Trump Twitou que “No ano passado, 37.000 americanos morreram de gripe comum”. “Nada será confinado, a vida e a economia continuam.” Num só mês, o número de mortes por coronavírus nos Estados Unidos chegou a atingir 21.000, e a pandemia estava em alta, matando cerca de 2.000 americanos todos os dias.

Ciência isolacionista

A 24 de setembro, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos propôs uma nova regra para restringir o tempo que os estudantes internacionais podem passar nos Estados Unidos. A regra limita os vistos para a maioria dos estudantes a quatro anos, exigindo uma prorrogação depois, e impõe um limite de dois anos para estudantes de dezenas de países considerados de alto risco, ditos como patrocinadores do terror: Iraque, Irão, Síria e a República Popular Democrática da Coreia.

Embora ainda não esteja claro quais os efeitos que essa regra pode ter, muitos cientistas e especialistas em política temem que essa e outras políticas de imigração possam ter um impacto duradouro na ciência americana que faz parte da ciência global. “Isso poderá colocar os EUA numa enorme desvantagem competitiva para atrair estudantes de pós-graduação e cientistas”, disse Lizbet Boroughs, vice-presidente da Associação de Universidades Americanas um grupo que representa 65 instituições.



Resumo e tradução de Félix Rodrigues

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