• Félix Rodrigues

Como vê o Primeiro-Ministro casos como os de hoje (1876 infeções e 15 óbitos)

Temos hoje em Portugal mais 15 óbitos por Covid-19 e mais 1876 casos de infeção. Os números de amanhã, relativamente à infeção vão crescer.

Ontem entrevistaram o Primeiro-Ministro António Costa sobre a Pandemia e estes números. Deu para perceber que o seu governo não planeia o combate, age em função dos números do dia e isso é mau porque são muito variáveis com vários efeitos. Deu para entender que só agora olhou para o excesso de mortalidade em Portugal e que só agora percebeu que isso se constitui um grave problema, quando esse excesso se começou a notar desde finais de março. Ainda não percebeu o efeito de fim de semana. Espera pelo estudo dos “cientistas” para lhe dizerem quais são as causas do excesso de mortalidade (7440 óbitos). Desde o início da pandemia em Portugal que o excesso de mortalidade ronda os 14% da mortalidade normal e isso não ocorreu somente nos períodos de calor. Posto isso, como testará um cientista essa hipótese? Se houve mortalidade acrescida este ano por vagas de calor não me apercebi delas pois em anos anteriores também existiram vagas de calor que estão dentro da média esperada. De facto, há um acréscimo elevado de mortalidade este ano no mês de agosto relativamente aos anos anteriores e a sua explicação é multifactorial.

Diz o Primeiro-ministro português que o combate à infeção se faz com cada um. Nada mais certeiro: Faz-se com médicos, enfermeiros, professores, estudantes, trabalhadores de empresas com muitos empregados e com cada um de nós. Continua a faltar aquilo a que compete efetivamente aos governos que é a “comunicação de risco”. Isso não é feito. Há medidas que são aplicadas sem qualquer esclarecimento, e outras, que são explicadas até à exaustão. Explica-se até à exaustão aquilo que toda a gente já sabe, e o que é mais técnico ou importante, aborda-se pela rama. É importante explicar muito bem que o risco de se ir a uma urgência hospitalar ou a um hospital não é um risco acrescido. É ou não? Que contas foram feitas?

É importante explicar que ir a um restaurante numa região específica pode ser mais perigoso do que noutra região do país.

É importante explicar que não é todo o país que evolui na infeção de forma exponencial e que gerir Porto e Lisboa não é idêntico a gerir Alentejo, Açores e Madeira, por exemplo.

É preciso explicar a razão pela qual as medidas de remediação têm que ser aplicadas a todo o país e não só a algumas regiões.

É preciso explicar a razão pela qual uma gestão macro é melhor do que uma gestão micro ou o seu contrário.

É preciso explicar aos portugueses o que é que eles estão a fazer bem, e dar-lhes exemplos, e não só explicar-lhes o que estão a fazer mal com números abstratos para a maioria da população. Uma festa com 200 pessoas é perigosa, mas não explica os cerca de 2000 infetados diários que temos no país.

O Primeiro-Ministro explicou bem os benefícios e as virtudes da App Stayaway Covid. Deveria tê-lo feito há muito tempo em vez de informar apenas que já temos uma App ou que quer tornar o seu uso obrigatório.

A mentira, o desconhecimento ou a crença, são os piores inimigos de uma comunicação de risco eficaz. Os políticos, quando não sabem, não têm que interpretar os números, tem apenas que perceber com que medidas podem fazer diminuir a curva da infeção e deveriam passar a bola da “comunicação de risco” a quem sabe fazê-la, porque isso não é comunicação política.

Numa pandemia há o quadro macro (os milhões), o quadro micro (os milhares), mas também há o quadro nano (as centenas) e o quadro pico (as dezenas). Tudo isso exige gestão.

A nível macro (mundo) já ultrapassámos os 40 milhões de infetados e os 1,1 milhões de óbitos, com os Estados Unidos à cabeça (mais de oito milhões de infetados), seguidos da Índia (7,6 milhões), Brasil (5,2 milhões), Rússia (1,4 milhões), Argentina (1 milhão) e Espanha (cerca de 1 milhão).

A nível micro temos o nosso país com mais de 100 mil infetados num crescimento preocupante, explicado ora pela temperatura ora pelas tempestades, ora por outra coisa qualquer. Já ficou provado que o calor e frio não tem qualquer efeito nisso, embora, quanto maior for a radiação ultravioleta menos o vírus se dispersa, e por outro lado, quanto mais húmido estiver o ar, menos o vírus se dispersa. Se aumenta numa dessas situações ou outra, isso não se deve propriamente ao clima mas sim ao comportamento dessas pessoas face a esse padrão climático específico. Vamos ultrapassar a Suécia, e o clima sueco, nada tem a ver com o clima português. Somos nós os agentes dispersores da infeção.

Ao nível nano, temos problemas nos Lares de Idosos que parecem estar a ser combatidos com alguma eficácia, mas outros a nível hospitalar não estão controlados. A nível das escolas, parece haver algum controlo.

Ao nível pico, família, prédio, bairro, é um desastre completo. É a esse nível que cada um de nós se encontra. Não há meios, não há supervisão, não há recolha de dados, não há muito voluntariado, não há regras claras. Há muita coisa que não há, mas que tem que existir na cabeça de cada um de nós.



Félix Rodrigues

63 visualizações
acda_cubo.png

Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores
Canada de Belém

TERINOV - Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira - Sala B4

9700-702 Terra Chã, Angra do Heroísmo

NEWSLETTER

  • White Facebook Icon
  • White LinkedIn Icon
  • White Twitter Icon

© Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores