• Félix Rodrigues

Congresso da Associação Portuguesa de Desenvolvimento Regional na ilha Terceira

Partilha-se entrevista do Professor Tomás Dentinho, publicada no jornal Diário Insular.


TOMAZ DENTINHO, ECONOMISTA E MEMBRO DA APDR

"A economia regional está a passar por duas crises"


Qual é a importância da realização deste evento na Terceira? O Congresso da APDR é um encontro anual da associação que já se realizou na Terceira em 2007 e que volta cá este ano. Depois do sucesso de 2007, presidimos à APDR, de 2008 a 2011, passando a associação a ter a sede de Angra, que mantém. Passámos, em 2011, a ter a sede da Regional ScienceAssociationInternational (www.regionalscience.org) e é aqui que se faz o secretariado de duas revistas científicas internacionais: o Papers in Regional Science e a Regional SciencePolicyandPractice. E é a partir daqui que se apoia a organização de congressos, encontros e edições nacionais e internacionais. Criámos cursos de verão com alunos de todo o mundo, em 2012 e 2013, que agora são muito bons cientistas. No entanto, não pudemos continuar porque havia pouco interesse dos alunos pós-graduados dos Açores. Para colmatar essa limitação, propusemos um curso de Mestrado em Desenvolvimento Regional Sustentável, com três disciplinas diferentes do Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza, mas o Conselho Científico da Universidade não aprovou a proposta. Face a estas restrições, o sonho associado ao congresso deste ano é diferente. Por um lado, trata-se de lançar a temática do desenvolvimento regional ligado à gestão sustentável do mar que se prende com a Estratégia do Mar em elaboração pelo professor Ricardo Serrão Santos, ministro do Mar, pela professora Assunção Cristas, ex-ministra do mar, e a professora Regina Salvador, da Cátedra Europeia para o Mar. A ideia é lançar um número especial da revista Regional SciencePolicyandPractice, onde a questão da gestão do mar e afetação das rendas que possibilita serão certamente tratadas. Ligada à estratégia do mar está, naturalmente, a monitorização da sua gestão pelas imagens de satélite. Para esta vertente, contamos com a presença do professor Manuel Heitor, ministro da Ciência e Tecnologia e do Air Centre. Finalmente, como virão à Terceira os professores Peter Nijkamp, Andrés Rodriguez-Pose e Eduardo Haddad, todos da presidência da Regional ScienceAssociationInternational, certamente haverá tempo para pensar o futuro desta interessante associação científica internacional que integra 4500 cientistas em todo o mundo e tem sede em Angra. Porventura, a Universidade dos Açores e outras entidades da ciência e da tecnologia continuem a passar ao lado das potencialidades criadas, mas nada impede de sonhar para aqui a criação de um núcleo da Regional ScienceAcademy que venha a conferir e a certificar graus de mestrado e doutoramento em ciência regional. Seria ligado on-line a professores, alunos e investigadores de todo o mundo e que queiram passar na ilha duas semanas por ano de interação intensa. Creio que se prestava um serviço importante ao mundo e é para isso que a Terceira existe.


Em que momento da economia regional acontece este congresso? A economia regional está a passar duas crises em simultâneo. A crise do Covid-19, como em todo o mundo, mas que, numa região em desenvolvimento turístico, tem um impacto relevante. Depois, a crise da dívida pública regional, feita em projetos inviáveis e pela aposta sancionada por Bruxelas e por Lisboa da criação de uma sociedade dependente. O trabalho feito por Eduardo Haddad para o Estado de São Paulo - com um modelo semelhante ao que fez para os Açores - permitiu gerir a abertura da economia, município a município, e assim salvar 300000 empregos. Se usássemos o modelo feito para os Açores como Haddad está a fazer para São Paulo, mobilizado pelo Governo do Estado, certamente não teríamos impacto negativo nas ilhas que não têm casos de Covid-19 ou que se vão libertando dos casos. Por outro lado, o trabalho feito para a Europa por Andrés Rodriguez Pose e que resultou na política europeia de place-based policies, associado ao trabalho que tem feito mais recente sobre a influência das más instituições na pobreza dos povos, naturalmente que tem terreno para aplicar nos Açores onde a dependência e degradação das instituições atrasa a Região, como o Governo de Sócrates atrasou o país. Mas, mais uma vez, é preciso que haja gente para ouvir, perguntar, interpretar e agir. Não sei se haverá. Tenho a impressão de que preferimos a catástrofe à mudança, mas da responsabilidade para com os nossos filhos não nos livramos.

Vão ser debatidos projetos como o Air Centre. O que se pode dizer sobre o valor do Air Centre para a Terceira? Vai haver uma sessão especial sobre o Air Centre, onde serão apresentados os desenvolvimentos feitos por este programa. Tem a contribuição de investigadores sediados no Continente e investigadores sediados no TERINOV. A questão está na atitude das pessoas. Ou, alternativa A: Como diziam num encontro do Air Centre, na Praia da Vitória, os ministros da Índia e da África do Sul, aproveitamos as tecnologias do Espaço para fazer a gestão sustentável dos recursos do mar e da terra para o desenvolvimento regional sustentável. Ou, alternativa B: Essas tecnologias servem apenas para a recolha e processamento de dados para benefício de outros. A questão para a Terceira e para os Açores é se queremos apenas ser coletores de dados através de equipamentos sofisticados feitos por outros, ou se queremos fazer a gestão sustentável do mar, do ar e da terra para o desenvolvimento das pessoas e dos sítios. Sem criação de saber local com mestrados e doutoramentos na área da sustentabilidade e do desenvolvimento não creio que seja fácil. Mais angustiante é quando somos nós que impedimos esses cursos. O que vale é que outros - na Índia, na África e na América, os aproveitam. Por indisponibilidade de outros locais estamos lá em cima no TERINOV, no dia 10 e 11 de Setembro. A inscrição é limitada a 45 pessoas por causa da pandemia de Covid-19. Haverá 24 apresentações presenciais e 100 apresentações on-line. Sejam bem-vindos se quiserem escutar, questionar e interpretar. Agir. Também que é por isso que somos livres; ainda.




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