• Tomaz Ponce Dentinho

Conversa de dias com José Luís Parreira

José Luís Pereira

Boa noite senhor professor. Num dos seus artigos fala em criar concorrência na recolha do leite. Como é que se faz isso na prática? Eu tenho uma opinião de que muitos monopólios de pequena e grande dimensão são consequência da intervenção do estado na economia, nomeadamente, dos subsídios da União Europeia. Muitas empresas tóxicas como a UNICOL vão-se mantendo no mercado através de uns apoios em vez de libertarem espaço para outras crescerem. Isto e ainda uma carga fiscal elevada e progressiva protege fiscalmente as empresas já instaladas da concorrência de novas que arrisquem. A UNICOL tem um historial de más decisões e provavelmente teria falido num mercado livre concorrencial. O seu leite é o mais caro de todos nos supermercados do continente e os poucos queijos bons que produzem são grandes e caros para se tornarem apelativos a famílias comuns. Por isso não conseguem competir com o leite do Faial ou o queijo tipo ilha das Flores que é o mais barato e tem bom sabor. O problema é que só estão dispostos a comprar uma certa quota de leite a cada produtor e vão pagar menos 15 cêntimos por cada litro produzido a mais. Não entendo como é que uma empresa que se queixa de excesso de leite e depois vende mais caro que a concorrência. Talvez lhes compense vender pouco e caro e comprar barato. A minha mãe devido à idade (57 anos) foi reduzindo a lavoura de 50 vacas para 20 atualmente, ficando apenas no campo que é dela. Essas vacas são capazes de produzir 10 000 l/mês (o tal 1 emprego), mas com a penalização perderemos 25 euros durante o mês de Julho e progressivamente menos até Dezembro. Ou seja, verá o seu rendimento reduzido em um pouco mais de metade. Qual é a sua opinião sobre isso?

10/07/2020, 06:35

Tomaz Ponce Dentinho

O problema é haver só uma empresa. E essa empresa que é a única compradora ganha mais comprando menos leite e a um preço mais baixo. Por isso impõe uma quota de empresa mesmo já não havendo quotas da União Europeia. Se houvesse várias empresas compradoras (como acontece em São Miguel), há concorrência entre elas, o preço sobe, sobre a quantidade comprada e as empresas são obrigadas a inovar nos produtos e nos processos para se manterem competitivas. Não havendo outras empresas a solução é a UNICOL tornar-se independente da Pronicol criando uma torre de secagem na UNICOL. Se assim fosse quando a Pronicol baixasse o preço abaixo de um limite a UNICOL faria leite em pó e manteiga. E se não for a UNICOL pode ser outra empresa mas quer numa quer noutra situação têm que ser muito bem geridas.

José Luís Parreira

Mas sendo ambas privadas como é que se faria isso? Com intervenção pública?

Forçando-as a tornarem-se independentes?

Tomaz Ponce Dentinho

Os que querem fazer a nova fábrica podem comprar a UNICOL, a Torre de Secagem e a produção de manteiga com o apoio do governo ou fazer a Nova fábrica com os agricultores associados.

Sáb, 23:46

José Luís Parreira

Um eventual apoio do governo para complementar a concorrência na recolha do leite não seria incompatível com os princípios de Adam Smith?

Dom, 06:28

Tomaz Ponce Dentinho

Péssimo. Em monopólio e com quota imposta pela UNICOL todo o apoio do governo iria para a UNICOL. Para além da UNICOL não ser estimulada a optimizar a recolha de leite. Em tempos utilizei um modelo de otimização de recolha que poupava 1 cêntimo por litro de leite. A UNICOL e o Governo em vez de comprarem o programa e contratarem um técnico para planear a recolha, preferiram comprar camiões desajustados da recolha tornando a recolha mais cara. O resultado é o que se vê.

José Luís Parreira

Há uma coisa que não entendo. Temos um governo que tem matadouros, pastagens, matas, empresas disto e daquilo, uma empresa de aviação, mas depois é incapaz de intervir naquilo que é mais importante: promover a concorrência. Eu até diria que poderíamos ter um mercado livre concorrencial na prestação de serviços públicos com hospitais, centros de saúde, clínicas e consultórios a concorrer entre si.

Tomaz Ponce Dentinho

Claro. Quando possível. Em São Jorge é possível haver concorrência pela matéria prima (leite) entre cooperativas para produzir um queijo de reconhecido valor. No Corvo é possível promover a concorrência entre produções caseiras de um queijo com potencial. Na Terceira é possível promover a concorrência entre fábricas. A UNICOL, dos lavradores pode ter uma torre de secagem e produzir manteiga para conservar produções que não são canalizadas para produtos de maior valor acrescentado. Mas não apostar na concorrência resulta num sistema colonial de plantação. Digo-o desde há 35 anos mas as pessoas não querem entender. Pena.

Sex, 22:51

José Luís Parreira

O senhor fala da possibilidade de existirem táxis aéreos com pilotos e mecânicos radicados em algumas ilhas a concorrem uns com os outros. Para tal, o primeiro passo seria deixar de proteger a SATA e a TAP e deixar o mercado funcionar, certo? Como é que convenceria as pessoas de que se não houvesse SATA inter-ilhas iriam aparecer outras companhias interessadas em fazer o mesmo serviço e as pessoas poderiam continuar a viajar? E se não houver interessados, isto é, se a iniciativa privada não responder às necessidades, qual seria a melhor solução alternativa? Admitiria outro tipo de intervencionismo do governo que não fosse ser dono de uma companhia aérea?

07:58

Tomaz Ponce Dentinho

Como lhe disse, nos anos 90 apareceu uma companhia a operar no Corvo. Basta liberalizar o transporte inter-ilhas e a SATA tem que competir com as que aparecerem. É assim que funciona a liberdade de mercado. Abrimos cafés e restaurantes, escritórios e consultórios, barbeiros e cabeleireiros, jornais e cursos, fábricas e supermercados,... porque gostam do nosso trabalho. Quando funciona o governo deve fazer o mínimo. E como se provou na liberalização dos transportes aéreos ninguém precisa do Governo. Bem bom que fez os aeroportos, as estradas e os portos.

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