• Jornal Digital ACDA

Corrompe-se-nos o biorritmo

ESTROBOSCÓPIO ACIDENTAL


1. Dizer que o confinamento não me custou muito é pecar por defeito. Tirando a preocupação com a Humanidade e os mais velhos, foi um tempo quase exultante.

Mesmo perante uma meteorologia horrível para uma Primavera frequentemente encantadora, aliviei-me de todos os compromissos chatos (embora também de alguns estimulantes), concentrei-me o que pude no meu trabalho, gozei o jardim e os cães, reduzi uns 20 bpm à pulsação cardíaca e nem sequer tive de engordar.

Mas, de repente, o meu corpo começou a dar sinais de desequilíbrio. Fui ao calendário: era da falta das Sanjoaninas. Estariam em curso precisamente agora, e durante dez dias haveríamos de andar todos um pouco (e às vezes um muito) embriagados por Angra, a ouvir o som das marchas e a inspirar os primeiros cheiros do Verão e a comer morcela frita e a ver as raparigas.

Mas não.

Foi a primeira vez que a pandemia me custou pessoalmente, fora a ansiedade com que se ia ao supermercado nas primeiras semanas. Não haver Sanjoaninas uma vez por ano é como não haver noite uma vez por dia (como nos círculos polares): corrompe-se-nos o biorritmo, confundem-se-nos as emoções, deturpa-se-nos a noção do tempo. E, de repente, olha-se para a frente e falta um ano ainda.

É muito burguesa, a minha tragédia. A nossa, que sei bem não ser o único. Mas não deixa de ser uma tragédia.

Eu quero vestir uma t-shirt, e descer a Rua da Sé, e beber cerveja pela garrafa, e sentir o cheiro do calor, e dançarolar timidamente a um canto, e reencontrar os rapazes do meu tempo, e mandar umas bocas ao desfile, e soltar a franga sem culpa ou vergonha, e voltar para casa às nove da manhã – e, no fim, achar que para o ano quero estar vivo outra vez só para poder estar ali de novo.

É uma necessidade biológica, e agora já acho que mais valia apanharmos todos o raio do bicho de uma vez e, enfim, concentrarmo-nos no Alto das Covas, para descer a cidade a bailar.


2. Talvez seja altura de encararmos a possibilidade de que “o politicamente correcto” se tenha tornado um chavão confortável. É preciso corrigir a política e as visões da política – provavelmente, é preciso ser-se politicamente correcto.

E, se não, algum outro antídoto teremos de formular para a tenebrosa realidade do racismo, inclusive em Portugal.

Que não havia, disse alguém. E, no entanto, bastou levantar-se o debate para que o racismo atávico se manifestasse em massa, aliás de todos os quadrantes – da direita, do centro, até da esquerda, e naturalmente dos que não são de lado nenhum da democracia.

Descobrimos que vizinhos nossos são atavicamente racistas. Que colegas nossos são atavicamente racistas. Que amigos nossos são atavicamente racistas. Que heróis nossos são atavicamente racistas.

Está-lhe nas entrelinhas e às vezes até nas linhas. E oxalá não nos esteja nas nossas também.


3. Com esta coisa das máscaras, os olhos tornam-se de repente o único traço distintivo de um rosto. Pessoas que julgávamos banais parecem lindas.

E pessoas que julgávamos lindas parecem banais, sim. Mas creio que a primeira situação ocorre francamente mais vezes.

Se eu fosse matemático, inventava uma fórmula em que se determinasse que, quanto mais as reduzimos aos olhos, mais bonitas as pessoas são. Com as ferramentas de um escritor, não vale a pena: parece só frase de efeito.


4. Como reportagem, tenho a certeza de que o livro de John Bolton é um serviço à democracia. Têm-se dado Pulitzers a repórteres infiltrados em ambientes francamente menos tóxicos.

Agora, como livro de memórias políticas, tenho uma questão antes de fazer o meu proceed-to-checkout na aplicaçãopda Amazon: Bolton não sabia já que Trump era um imbecil quando aceitou servi-lo em Abril de 2018?


«Eu quero vestir uma t-shirt, e descer a Rua da Sé, e beber cerveja pela garrafa, e sentir o cheiro do calor, e dançarolar timidamente a um canto, e reencontrar os rapazes do meu tempo, e mandar umas bocas ao desfile, e soltar a franga sem culpa ou vergonha, e voltar para casa às nove da manhã – e, no fim, achar que para o ano quero estar vivo outra vez só para poder estar ali de novo.»


Joel Neto

JOELNETO.COM

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