• Félix Rodrigues

COVID-19 - A necessidade de busca de rigor

Pedro de Sousa Rodrigues*


O artigo que prometi como finalização da análise sobre a COVID19, foi transformado em dois artigos. Que o leitor poderá encontrar em COVID19 – “Análise criteriosa II” que enviarei para publicação a 26 de Outubro. E “Um índice com propriedades comparativas”. Que enviarei para publicação a 31 de Outubro.

Na “Análise criteriosa II” senti-me obrigado a reforçar ideias antes apresentadas por continuar a ouvir notícias e comentários em canais de informação que são acima de tudo enganosos. Ou no mínimo muito incompletos. Quando estamos a deparar com uma pandemia que nos devia obrigar a buscar o maior rigor possível. E a melhor informação.

São tantos os exemplos que poderia aqui desenvolver de comentários que são meras opiniões não científicas (algumas das quais gravosas) que teria pano para várias páginas. Mas, bem ficarei apenas com a última dessas notícias que ouvi. E que não conseguiu deixar de me continuar a espantar. E que está mais diretamente relacionado com os meus artigos.

No dia 21 de Outubro, um canal informativo começou por anunciar os casos positivos relatados diariamente como o número de infeções diárias. Quando os casos positivos detetados e infeções diárias são dois conceitos bem distintos na Análise epidemiológica. E por razões muito sérias. Desde logo a probabilidade de ambos se tocarem é muitíssima baixa. Porque todos podemos compreender que o número de reais infeções que ocorrem dificilmente podem ser todas capturadas. A não ser que testemos todas as pessoas duma População. Todos os dias.

Para depois chegar o dito canal, à conclusão que “a taxa de mortalidade das infeções está a diminuir”. E que explicava a diferença de 5% para 0.8% na taxa de mortalidade quando analisando Abril e Setembro. Isto é simplesmente com a mais elevada probabilidade: falso.

Mesmo que o canal estivesse a referir taxa de mortalidade dos hospitalizados. Sendo que os dados que apresentaram contrariam esta tese. Mesmo que esta tese fosse sustentável, uma análise fina dos hospitalizados nos distintos períodos seria necessária.

Assim, segundo esse canal dito informativo, e com muita audiência, o vírus está-se a revelar menos mortal. “O novo vírus está mais fraco”. E tão mais fraco que explica inteiramente as diferenças de mortalidade observadas nos períodos em análise. Sem base e sem referência a nenhum estudo de Analise de sobrevivência a suportar tais ideias.

E com base em comparações entre a taxa de mortalidade que ocorreu em Abril e em Setembro. E aqui efetuando desde logo um erro de análise da maior gravidade. Porque desde logo o número de testes em Abril (quantidade e foco dos testes) foi muito distinto dos realizados em Setembro.

Sejamos claros: a taxa de mortalidade baseada nos casos positivos detetados não é o mesmo que a taxa de mortalidade das infeções efetivas. Confundir os dois conceitos é o caminho mais fácil para surtos mais elevados. Como disse um Médico conceituado e muito bem “é tudo uma questão de denominador”. Passo a explicar.

Em Abril foram testadas muito menos pessoas e a taxa de mortalidade dos casos positivos detetados tem como base a divisão (Número de mortes/casos positivos detetados).

Num exemplo, se em Abril tivessem existido 1000 infeções efetivas. E tivessem sido apenas detetados os 200 casos mais graves (menos testagem). E fossem 20 as mortes observadas, teríamos 10% de taxa de mortalidade baseada nos casos. Se tivessem sido 600 os casos detetados (maior testagem e mais qualidade na testagem) teríamos o mesmo número de mortes (20) e uma taxa de mortalidade de 3.3%. Sendo, portanto, que distintas taxas de mortalidade não decorrem obrigatoriamente do fato de “o vírus ter perdido força”. “Não porque mais pessoas de risco foram infetadas”. Como também já vi referido como correlação que é simplesmente não obrigatória.

Mas, apenas, no nosso exemplo, porque os casos positivos detetados captavam de forma bem distinta o número real de infeções. No gráfico temos acesso a um exemplo prático do que aqui refiro.


· O gráfico reflete análise da taxa de mortalidade baseada nos casos reportados e nos casos que se consideram efetivos (com base em estudos serológicos). Ver Artigo I a ser publicado neste jornal. Deixando claro a possível discrepância entre número de casos reportados e número de casos efetivos. E o seu efeito no cálculo da taxa de mortalidade.

· Conforme o número de casos detetados mais reflete o número de reais infetados (mais qualidade de testagem) mais a taxa de mortalidade tende a baixar.

Na realidade as diferenças observadas nas taxas de mortalidade ao longo dos tempos (em distintos meses no mesmo País) têm revelado muitas vezes como base explicativa muito plausível os seguintes fatores:

1. A discrepância entre número de casos positivos e infeções efetivas. Por distinta capacidade ou estratégia de testagem nos distintos períodos;

2. Um pior acompanhamento hospitalar. Por exemplo quando em certos meses existiram Hospitais mais sobrecarregados ou com menos capacidade de acompanhamento. Que impediram dar a cada paciente uma maior atenção personalizada. Um fator que segundo muitos Médicos pode ser de significativo relevo;

3. Uma melhoria de introdução de métodos terapêuticos que os Médicos foram adquirindo com a experiência.

E por fim, estes três fatores estão presentes quando comparamos Abril e Setembro. E seguramente têm uma palavra significativa a dizer na diferença de 5% e de 0.8% da taxa de mortalidade encontrada nesses períodos.

Em alguns casos verificou-se também que um melhor isolamento de pessoas de maior risco, em certos períodos, teve como resultado que o vírus apenas circulou junto de pessoas com menor risco de morte. E por isso, a mais casos fica associado uma menor taxa de mortalidade. Neste caso, o vírus não perdeu força alguma. Apenas está a infetar pessoas menos suscetíveis.

Nota: É ainda aconselhável não desprezar efeitos secundários futuros dos infetados que sobrevivem.

E como se isto tudo não bastasse o cálculo da taxa de mortalidade efetuado tudo indica foi efetuado com base nas mortes e casos reportados em Abril e Setembro, sendo que como referi em artigo anterior, o número de mortes num mês reflete também casos do mês anterior. Sendo que é necessário estabelecer um Método que capture este facto. (Ver Artigo II a ser publicado neste jornal). Pelo menos de forma aproximativa.

Assim sendo mesmo que o vírus tivesse perdido alguma da sua potência infeciosa, e repito desconheço estudos de Análise de sobrevivência sobre o assunto e diariamente oiço a opinião de conceituados especialistas Internacionais e ainda não vi mencionada tal fato como fator de relevo. Mesmo que assim fosse, a diferença observada de 5% para 0.8% na taxa de mortalidade quando comparando os dados reportados em Abril e Setembro, não é uma diferença qualquer. E não seria apenas explicado por esse fator. E ficaria por determinar qual o seu real impacto. E em que percentagem.

O que irei demonstrar no primeiro artigo é o impacto que diferentes estratégias de testagem têm na definição do valor da taxa de mortalidade com base nos casos.

Aliás o que suscitou a minha consideração de um índice comparativo (artigo seguinte).

Este inundar de notícias sobre o vírus não apenas está a tornar proporções absurdas. Porque nada rigorosas. Ele sim pode conduzir à confusão. Ao esgotamento. E ao cansaço.

Procuro aqui precisamente o contrário. Buscar algum esclarecimento. Um ponto de partida para análises mais objetivas e credíveis. Tendo, sempre como princípio, que todo o leitor é inteligente. E não, que só consegue entender alguma coisa se for confrontado com análises simplistas, rápidas. E de paupérrimo rigor.

Sendo que como devem calcular nada pode ser mais incomodativo para quem se dedicou à investigação e ao estudo da Estatística nos últimos anos do que ver pessoas a referirem como Estatística e análise de dados o que realmente não passa de um mero despejar de números sobre a mesa.

Numa situação que merece a maior clarividência possível.

Deve ficar ainda claro: Não tenho qualquer conflito de interesses.

Não pertenço a nenhuma Organização. Nunca pertenci a nenhum Partido Político.


*Biólogo com pós graduação em Estatística

Experiência como Professor Assistente de Métodos Quantitativos

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