• Tomaz Ponce Dentinho

De Toronto para a Polónia via Romarias de São Miguel*

Sou um sacerdote Polaco membro da Congregação Religiosa dos Missionários do Verbo Divino (SVD). Gostaria de partilhar um pouco a minha experiência na participação das romarias quaresmais em São Miguel. A razão pela qual integrei-me na Irmandade dos Romeiros foi pelo facto de querer conhecer esta longínqua tradição transportada nos corações dos homens micaelenses imigrantes em Toronto, Ontário - Canadá. Desde 2005 encontro-me no meio da Diáspora Açoriana em paróquias onde muitas culturas buscam a mesma Fé em Jesus Ressuscitado.

No tempo da Quaresma de uma forma simbólica, os Irmãos Romeiros de Toronto fazem um dia de viagem de Romaria em preparação a Páscoa do Senhor. Após ter observado por algum tempo esta expressão religiosa tão diferente, começou a gerar em mim a curio­sidade e a vontade de saber a história, motivação e reali­dade desta expressão de Fé. Surgiu em mim a vontade de conhecer as Romarias mais de perto e dos dois lados. Comecei por pesquisar as fontes escritas sobre as Romarias, encontrar livros e artigos que já haviam analisa­do os Romeiros e as suas viagens durante estes quase 500 anos de existência.

A razão desta pesquisa veio fermentar-se pelo facto de que estou inscrito no programa de doutoramento na Universidade Católica de Lublin na Polónia, onde pre­tendo analisar esta experiência religiosa à luz da Piedade Popular e Inculturação da Fé. Sabia também que para entender este fenómeno não bastaria somente ler, analisar ou conhecer de uma forma teórica, precisava de inserir-me na realidade desta via­gem, tornar-me num dos Romeiros.

Nos mais de 50 ranchos que anualmente percorrem a Ilha de São Miguel, graças ao Pe. Ricardo Pimentel decidi inserir-me no rancho da Ribeira Quente e Furnas, para viver na prática a Irmandade dos Romeiros. As palavras: “Irmandade”, “Viagem”, “casas de Nossa Senhora”, as “Avé Marias”, “seja Louvada a Sagrada a vida, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo...” tornaram-se para mim o motto das minhas viagens nas Romarias.

“Irmandade” expressa-se na solidariedade entre os Irmãos, que dão graças por estarem juntos com o mesmo objetivo, de estarem unidos assim como Jesus pede aos seus Discípulos, que sejam um como Ele, Seu Pai e Divino Espírito Santo são um só Deus. Ninguém está só, existe sempre partilha e ajuda em todas as necessidades. Um apoia o outro, incentivando a continuar a “viagem” para encontrarem-se profundamente com Deus, levando aos Céus as promessas, agradecimentos, corrente de oração uns pelos outros. O Terço que os Irmãos Romeiros carregam ao pescoço e na mão é uma corrente que inicia-se e finaliza-se com a Cruz, pois esta é a razão de viajar, encontrar Jesus nas “casas de Nossa Senhora”.

Estas “casas” pequenas e grandes espalhadas por toda a ilha mostram o tamanho da confiança, carinho e amor que o povo de Deus que vive nesta ilha tem pela Mãe de Deus, Santa Maria que é venerada por tantos nomes e encontra-se no meio dos discípulos de Cristo nas Igrejas, capelas e ermidas.

Cantando e repetindo as “Avé Marias” nas ruas das freguesias, nas povoações e campos da ilha, os Irmãos Romeiros levam a presença de Deus a tantas pessoas que acreditam no poder das rezas dos Irmãos Romeiros. Às “Avé Marias” da corrente do rosário juntam-se as intenções, juntam-se os números de pedidos, para ninguém ficar esquecido na viagem de cada um de nós. Todas as contínuas orações que comparando com uma escada, cada seu grão, cada grão de “Avé Maria” levam os Irmãos Romeiros ao Céu.

Junto connosco vão os corações de tantas pessoas, as nossas famílias, nossos entes queridos, que espiritualmente fazem a viagem da romaria connosco nas cantadas e rezadas das “Avé Marias”.

Junto com Maria que assim como nas bodas de Caná, diz para todos os seus filhos: “Façam tudo o que Ele Vos disser”, os Irmãos Romeiros em cada momento do dia, desde a partida, das rezas, passando pelas “casas de Nos­sa Senhora” até às pernoitas louvam o Jesus Filho de Ma­ria na Sua “Vida, Paixão, Morte e Ressurreição”.

Estas palavras chaves das minhas Romarias ajudam­-me a apreciar esta profunda experiência religiosa, pois mostra visivelmente a piedade de um povo que pela his­tória e realidade da Ilha de São Miguel, quer encontrar Deus Uno e Trino nas orações, cantos e silêncio dos oito dias de viagem, saindo e voltando a casa, pois, a corrente das “Avé Marias” conduz as nossas saídas e regresso às nossas casas.

Inculturando a Fé de forma tão visível nas Romarias Quaresmais de São Miguel. Podemos encontrar o próprio Deus que se torna louvado e glorificado pelas orações evocadas nos corações dos Irmãos.

Podemos encontrar na cultura do povo Micaelense, que na sua história encontrou o seu verdadeiro “porto seguro” nas tempestades da vida, nos terramotos dos corações, e este “porto” estas “casas de Nossa Senhora” e a Fé, são a profunda certeza de que só nas Mãos de Deus se confia e vá, pelas viagens da vida.

Ser Romeiro é muito bom, pois junto com os Irmãos torno-me um “Homo Viator” homem “novo” que sai do seu comodismo e encontra-se com Deus na viagem da Romaria.

Agradeço todos os Irmãos do Rancho da Ribeira Quen­te e Furnas por estas três Romarias já cumpridas, com a esperança de poder continuar a enriquecer-me com estas viagens a fim de tornar-me um ser bom e um Irmão de todos.

Todos os Irmãos estão inseridos no meu coração, ao Mestre João Carlos um agradecimento pelo seu modo exemplar de organização e condução da Romaria deste Rancho.


*texto do Padre André retirado do suplemento “O Romeiro” da Crença, julho 2020

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