• Félix Rodrigues

Desabafo de um enfermeiro nos Açores

Partilha-se post pessoal do Enfermeiro Ricardo Dias, com o título: "Quando o sentido do dever e de responsabilidade é nosso inimigo".


Num comentário a um post do SEP- Direção Regional dos Açores, um colega nosso referia que existia uma grande falta de respeito dos vários governos, quer regionais, quer nacionais pelos enfermeiros e que resultava do facto destes já terem percebido que os enfermeiros, “independentemente das condições que tivessem, das injustiças que lhe acometessem e do desrespeito constante, o trabalho aparecia feito prevalecendo a responsabilidade".

Esta crise sanitária potenciou ainda mais aquilo que já era uma prática corrente. Se é verdade que nos Açores é indiscutível o sucesso que temos tido no controlo desta pandemia, também é evidente que este sucesso não resulta apenas das boas decisões do governo regional, do Sr. Diretor Regional Tiago Lopes e do seu gabinete técnico, pois sem o empenho dos profissionais de saúde todas as boas decisões estariam condenadas ao fracasso.

Porque sou enfermeiro vou falar do esforço que fizemos para que os Açores sejam um exemplo de sucesso nesta luta, isto sem menosprezar obviamente o esforço de todos os outros profissionais de saúde.

Devo dizer que muitos de nós fizeram turnos de 12,16 e até 20 horas de trabalho diário. Muitos deixaram de ir para casa para que os seus familiares não corressem riscos. Houve casais que tiveram de deixar os filhos menores muitas horas sozinhos para que os serviços pudessem funcionar. Passaram horas com todo o corpo revestido de plástico perdendo litros de água em cada turno. As máscaras, mesmo depois de retiradas do rosto deixavam marcas durante horas.

Cerca de um terço destes enfermeiros pertencem a grupos de risco por padecerem de patologias várias. Sim também as temos. Fizemos tudo isto ignorando o desprezo e o constante desrespeito do governo regional dos Açores para com os enfermeiros, que no entanto não hesita em os usar em outdoors para propaganda desse mesmo governo. É o governo que depois de todo o nosso empenho nos recusa contar o tempo de serviço de acordo com a lei e faltando ao compromisso livremente assumido com o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, que ignora para efeitos de progressão mais de uma década de trabalho de muitos enfermeiros querendo apenas contar o tempo a partir de 2019. É o Governo que oferece contratos de 4 meses quando a carência de enfermeiros é permanente.

Perante tudo isto caros cidadãos Açorianos, os enfermeiros recusam-se a ficar reféns do seu sentido de dever e responsabilidade perante um governo que teima em discriminá-los, relativamente aos outros funcionários públicos. É o governo que não nos deixa alternativa se não lutar pelos nossos direitos, mesmo que isso implique uma pior resposta às necessidades de saúde com a qualidade que os açorianos merecem, nos quais estamos nós e os nossos familiares incluídos.

Da minha parte desejo muita saúde a todos

Ricardo Dias enfermeiro e cidadão açoriano.




A fotografia ilustrativa é da LUSA.

2,788 visualizações
acda_cubo.png

Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores
Canada de Belém

TERINOV - Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira - Sala B4

9700-702 Terra Chã, Angra do Heroísmo

NEWSLETTER

  • White Facebook Icon
  • White LinkedIn Icon
  • White Twitter Icon

© Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores