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Desprovidos de préstimo

ESTROBOSCÓPIO ACIDENTAL



1.

Pensando bem, as pessoas também se podem dividir entre estes dois tipos: as que conseguem recusar um passou-bem a alguém que lhes estenda a mão e as que, mesmo em circunstâncias como as presentes, não conseguem. Balanço de um longo dia de reportagem: uns quinze cumprimentos com ligeiravénia, dois de cotovelinho e quatro apertos-de-mão à antiga – sempre que o interlocutor tomou a iniciativa, no fundo.

Talvez seja uma insegurança. Talvez necessidade de ser amado. Em qualquer dos casos, espera-me a cadeira do psiquiatra.


2.

O advento George Floyd não se limitou a despertar o racismo que hibernava – bem vivo – nos mais diversos países. Em Portugal, por exemplo, abriu espaço à radicalização do eleitor de direita.

Do eleitor comum de direita, isto é. Do eleitor anónimo, rural e urbano, conservador e às vezes até apenas liberal, mesmo tecnocrático.

No fundo, não é muito diferente do que já vinha acontecendo com a esquerda. Há anos que vemos o eleitor de esquerda extremar posições. Independentemente de estar grosso modo do lado do Bem, também se vem radicalizando devagar, como aliás o demonstra a pulverização eleitoral da esquerda.

Agora, temo motins. Porque há razões mais do que plausíveis para o desconforto, evidentemente: a democracia é imperfeita, a mobilidade social escassa, o emprego não se renova, a pandemia trouxe-nos um stress que não conhecíamos e agora, ainda por cima, a macro-economia está de rastos de novo.

Só que, frequentemente, a raiva da esquerda tem sido direccionada de modo indiscriminado. E, como é inevitável, o ódio da agora extrema-direita vai ser mal direcionado também – como sempre é o ódio, aliás.

Do que precisamos? Talvez de mais partidos de direita e mesmo ultradireita, ainda que sem o assumirem (como acontece com o Chega). No fundo, precisamos de dividir a direita.

Nesse sentido, o CDS do Chicão até pode, afinal, não ser totalmente desprovido de préstimo. Pelo menos não tanto como os militantes e eleitores do PSD que se têm juntado a André Ventura.

Da mesma maneira que o espartilhamento da extrema-esquerda tem ajudado a que nos mantenhamos dentro dos parâmetros da democracia, pode bem ser o espartilhamento da extrema-direita a manter-nos a salvo de um verdadeiro projecto de poder do lado oposto.

Seja como for, a democracia corre sérios riscos. Como é próprio dela, mas nem sempre com esta tempestade perfeita.


3.

É deplorável, a corrupção do centrão português (e europeu em geral). Aviltante, mesmo – simplesmente não se pode confiar em ninguém à partida.

Mas urge pôr os olhos (por exemplo) no Brasil. A corrupção não é um mal menor: é um mal maior. Só que o extremismo é maior ainda.

Apesar de tudo, antes a corrupção do que o ódio (que, aliás, também traz a corrupção a reboque, como o próprio Brasil começa a provar). Eis a conclusão que urge estabelecer neste momento tão perigoso da vida pública portuguesa.


4.

Escrevo, a propósito da tirada de Trump sobre a urgência de se reduzirem os números de testes de covid-19 nos EUA como estratégia para se reduzir o número de casos:

«Realmente, isto define um tempo. Um tempo em que o homem formalmente mais poderoso do planeta, a quem chamam líder do mundo livre, pode dizer uma barbaridade destas, confirmar uma barbaridade destas no dia seguinte, ver uma barbaridade destas tratada na imprensa como apenas mais uma barbaridade dele – e, mesmo assim, continuar a correr o risco de ser reeleito. Define um tempo, e é um tempo estúpido.»


Acto contínuo, recebo de alguém a reposta: «#TRUMP2020


Devolvo: «É como se fosse uma equipa de futebol, não é? “Vivó Trump e mai’ nada!” Enfim, não tenha vergonha, que ele também não teria.»


E recebo finalmente, com uma smiley face de gratidão: «Nem mais, caro Amigo, cada um sabe de si.»


Sim, a definição do tempo não estaria completa com Trump: sem a demonstração do grau de entendimento dos que o elegeram , pecaria sempre por defeito.


5.

Afinal, pode-se dar abraços, desde que pelas costas. Sou só eu que vejo nisto uma sugestão malandra?


«Do que precisamos? Talvez de mais partidos de direita e mesmo ultradireita, ainda que sem o assumirem (como acontece com o Chega). No fundo, precisamos de dividir a direita. Nesse sentido, o CDS do Chicão até pode, afinal, não ser totalmente desprovido de préstimo. Pelo menos não tanto como os militantes e eleitores do PSD que se têm juntado a André Ventura.»

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