• Tomaz Ponce Dentinho

Confundir escola com compra de computadores é trágico.


Desde que o homem é homem que grande parte do ensino não é feito nos bancos da escola. A casa com a família; a rua com os amigos; os locais de lazer com jogadores de desporto e de desafio; os empregos com colegas, chefes, chefiados, clientes e fornecedores; as paisagens pequenas e grandes; e os locais de culto com Nosso Senhor; todos eles constituem formas e conteúdos de comunicação, ensino, formação, educação, aprendizagem, gesto, sensação, sentimento e entendimento.

A profissionalização da comunicação, do ensino e da formação trouxe muitas vantagens, sobretudo quando permitiram e fomentaram o grito dos Pink Floyd “We don’t need no Education! We don’t need thought control!”. Em países, grupos e pessoas mais submissas, passivas e subjugadas, as “vítimas” dos profissionais de ensino avançaram para formas de submissão com a aprendizagem de gestos automáticos que começavam no picar do ponto, duravam-se nas rotinas do emprego e da escola e, com pouco treino de interação criativa, prolongavam-se nos silêncios televisionados das casas, cafés e bares.

A internet pode ser a continuação desses silêncios controlados pelos sempre prontos “big brothers” de George Orwell, fofoqueiros de demagogias ou denunciadores de ditaduras, revoluções ou de crises Covid. Vão nessa linha as formas educativas de plataformas centralizadas sejam elas as mais internacionalizadas tipo Moodle ou as feitas em casa tipo computador Magalhães. As que são feitas em casa falham duas vezes; falham porque são centralizadas e falham porque são más e feitas em casa.

Felizmente ao lado dos ditadores informáticos temos muitas alternativas descentralizadas que, espanto do espanto, funcionam melhor. Os que gostam de ser escravos de soluções centralizadas antigas e modernas dizem mal do correio eletrónico, do Facebook, do Google, do Wikipédia e do Zooms; e preferem o Moodle e o Moodle feito em casa. Antes diziam mal da rua e do café quando a ditadura vinha mais de casa e da Igreja. Agora criticam a casa e a Igreja quando a ditadura passou a ser da escola e do Estado. O mal não é de onde vem, o mal é não se assumir a condição livre de qualquer pessoa.

O Moodle não funciona porque, para além de ser uma forma com conteúdos bons e maus que não comunicam entre si, é difícil de aprender por alunos, pais e professores, cortando desde logo o pouco ambiente de intercomunicação que existia em casa, na escola e na rua. Pelo contrário o correio eletrónico, o Facebook, o Google, o Wikipédia, o Zooms e outros que eu não sei, podem funcionar melhor porque uma grande maioria dos alunos, professores e pais já os usam ou podem aprender com facilidade e interesse.

O problema foi que a escola socialista preferiu os Moodles e os Moodles tipo Magalhães feitos no país. E avançou alegremente para a compra de milhares de computadores que engordam a despesa pública e os benefícios de potenciais corruptos. Teria sido bem melhor se o ensino pudesse usar as plataformas generalizadas do correio eletrónico, do Facebook, do Google, do Wikipédia, do Zoom e outras que eu não sei, mas que os alunos conhecem e os professores podem aprender.

Foi assim que fizemos no Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza que felizmente só foi libertado para ficar 90% on-line quando o confinamento do Covid-19 nos abriu essa porta. Há dez anos que queríamos ter esse modelo com alunos de todo o mundo que viessem passar o mês de junho à Terceira. Mas só agora é possível, graças às plataformas descentralizadas e abertas e, paradoxalmente, ao confinamento do Covid-19 que abriu as mentes mais conservadoras. Não seria possível com o malfadado Moodle ou Moodle tipo Magalhães.

Sabemos como é difícil exercício da liberdade. A certeza que temos é que vence porque se multiplicaram os meios para o seu exercício e porque a liberdade está no coração e no entendimento de qualquer pessoa. Pena é que os Estados e os seus donos abusem do seu poder e esqueçam que a sua função é providenciar os bens públicos com os impostos que concordamos pagar através do nosso voto. E o bem público mais importante é a liberdade, neste caso para aprender em casa, na rua, na escola, no trabalho e na paisagem e com todos os meios que temos ao nosso dispor. Confundir escola com compra de computadores é trágico.

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