• Tomaz Ponce Dentinho

Floresta Amazónica: mitos e realidades

Miguel de Castelo-Branco, Fajã de Baixo-Ponta Delgada, Páscoa de 2019

Ouve-se constantemente falar nos media, sobretudo nos de propagação às massas como as televisões e até nos jornais, e às vezes em tom de cátedra, que o ser humano deveria observar com maior cautela o fenómeno do derrube excessivo de árvores ou desmatação da Floresta Amazónica, sob pena de se estar a pôr em risco aquele que é talvez um dos maiores “pulmões do planeta”. Mito ou realidade? O derrube excessivo tem certamente aspetos graves e até criminosos mas que nada têm que ver com a capacidade de produção de oxigénio da bacia equatorial do Amazonas que, esse argumento sim, está no reino dos mitos ou das inverdades, perfeitamente explicáveis com argumentos científicos que se aprendem na cadeira de Fisiologia Vegetal, do curriculum do 2.º ano do curso de Agronomia, e que os estudantes nunca mais esquecem.

Em todo o reino vegetal, a produção de massa verde ou de toda e qualquer massa vegetal – raízes, troncos, caules, folhas e flores – depende sempre e diretamente da Fotossíntese e da Clorofila. A Fotossíntese é em si um fenómeno químico, por etapas, bastante complexo e com sucessivas reações, mas pode ser entendido como: “a conversão da energia da luz, geralmente solar, em energia química, com a utilização da água e dióxido de carbono para a produção de matéria vegetal na forma primitiva de açúcares ou hidratos de carbono e consequente libertação de oxigénio”. A Clorofila, um dos intervenientes na Fotossíntese, é o pigmento de cor verde presente nos Cloroplastos, organelas das células das plantas e outros seres vivos fotossintetizadores.

As plantas vivas têm dois tipos de processos de trocas gasosas com a atmosfera que as rodeia: a fotossíntese, que lhes é particular e produz oxigénio durante o dia com consumo de dióxido de carbono, e a respiração, que dividem com a espécie humana e outros mamíferos, restantes animais pulmonados e demais seres vivos do mundo aeróbico, processo respiratório esse que ocorre dia e noite, consumindo oxigénio e produzindo dióxido de carbono.

Todo o sistema vegetal que exiba um crescimento líquido real encontra-se em produção e os sistemas que não denotam este crescimento, quando já evoluídos, denominam-se em clímax. Nas plantas em produção, como existe saldo líquido positivo de produção vegetal, o que significa haver produção majorada de açúcares, há excedentes de oxigénio; nos sistemas em clímax não há excedentes de oxigénio ou, por outras palavras, a massa molecular de oxigénio produzida pela fotossíntese é, grosso modo, anulada pela massa molecular de oxigénio consumida pela respiração.

A Mata Amazónica pertence à classificação dos sistemas em clímax. A sua implantação conta-se em talvez duas ou três dezenas de milhões de anos, mas ela não cresce em termos líquidos: as suas espécies são típicas das latitudes em que ela existe, pois a Mata não se expande naturalmente mais para Norte ou para Sul, estando limitada a Oeste pelos Andes, a Nordeste pelo Atlântico e a Leste e Sudeste pela Região mais árida do Nordeste Brasileiro. E se a altura do seu dossel (ou teto) também não aumenta, será que é porventura questionável que ela de facto produz, como um todo, milhões de toneladas diárias de massa vegetal, entre o crescimento das raízes, troncos, caules, folhas, flores e frutos da sua míriade de espécies botânicas? Certamente que não. Mas esta Floresta também perde os seus troncos, raízes, caules, folhas, flores e frutos quase no mesmo ritmo: ao de milhões de toneladas/dia. Porque se recicla ou, se quisermos, a Mata Amazónica vive de si própria.

Os solos da Bacia Amazónica são muito variados, onde se incluem, em maioria, os mais pobres de que há conhecimento no Continente Sul-americano. Estes são solos rasos, de poucos horizontes, francamente arenosos, de classes mais próximas dos litossolos, de reação ácida e de baixa concentração de nutrientes. Os solos profundos, argilo-arenosos, estruturados, de vários horizontes, de cor escura, Latossolos ou semelhantes, são bastante mais raros.

No caso específico do solo que suporta a imensa Mata Amazónica aquelas premissas mantêm-se, com a ressalva de que o primeiro horizonte e a superfície apresentam uma camada de húmus ou matéria orgânica resultante das perdas e decomposição constantes do meio ambiente da própria floresta, tanto vegetal como animal ou microbiano. E é praticamente apenas desta camada de matéria orgânica reciclada que vive a Floresta, utilizando o solo quase tão-somente como sustentáculo, num sistema equilibrado em que a produção de massa verde é compensada pela perda constante de quase igual quantidade de massa, na mesma cadência tranquila de há já milhões de anos, parcialmente perturbada pela ação do homem de algumas recentes décadas…

O fator Reciclagem é fundamental para percebermos porque é que a Amazónia está em Clímax. Se a Mata se auto-alimenta, sem fonte externa além da luz solar e da atmosfera – não dependendo do solo – não poderá crescer em termos líquidos, pois as suas necessidades de manutenção quase lhe esgotam os recursos. Se o quociente entre o crescimento e morte é próximo de 1 (Um), a diferença fatalmente tende ao 0 (Zero) – donde a massa vegetal fotossinteticamente ativa é apenas marginalmente superior ao bioma inerte. Em última análise a Mata, no contexto do seu espectro de vida, não pode ter excedentes muito significativos de oxigénio, por não ter resultante líquida de vida vegetal que o produza.

O valor da Mata Amazónica não está tanto na sua “capacidade pulmonar” mas muito mais na sua incomensurável e riquíssima biodiversidade, tão ameaçada pelo derrube exagerado, quer por empresas madeireiras incapazes de replantios com espécies arbóreas nativas que se extinguem, quer por fazendeiros em demanda de uma agricultura ou pecuária alternativas, condenados a um inexorável e relativamente rápido fracasso por solos que se exaurem.

Além da baixa - ou praticamente residual – produção de oxigénio da Amazónia, há outros dois aspetos científicos relacionados com o desmatamento que importa considerar e que são, sem dúvida, causas diretas do aumento potencial global da temperatura: as alterações do Albedo e da Evapotranspiração.

O Albedo ou Coeficiente de Reflexão, definido pelo suíço Johann Heinrich Lambert em 1760, é o poder de reflexão de uma superfície. É expresso em percentagem e vem a ser o quociente ou razão entre a radiação refletida por qualquer superfície e a radiação incidente sobre ela. Se compararmos a floresta com a savana resultante do desmatamento da Amazónia, é fácil percebermos que a superfície desmatada reflete bastante mais luz, com consequente aumento direto do Albedo e da temperatura.

A Evapotranspiração resulta do somatório da evaporação de água do solo e da transpiração pelas plantas. Ela serve, por exemplo, para calcular as necessidades de rega, por campanha e de qualquer cultura e é também um dado importante na gestão de bacias hidrográficas. É uma característica específica a cada cobertura vegetal e o seu valor é expresso em mm por unidade de tempo.

A alteração da Evapotranspiração, diminuída pela menor quantidade de massa verde da savana, ou terra cultivada, contribui igualmente para uma subida de temperatura, local e global, dado que e a título de exemplo, dos 5.5 milhões de quilómetros quadrados da região, estima-se que 17 % ou 935 mil quilómetros quadrados já foram desmatados. A este respeito, é o poder tampão inerente ao vapor de água produzido pela mata em relação ao aumento da temperatura e a sua contribuição para a humidade da atmosfera e regime de chuvas que importa ter em conta e que vem sendo alterado. No processo de Evapotranspiração do ecossistema florestal, o vapor de água é produzido a partir da área de massa verde e pela simples evaporação dos seus cursos de água, que perfazem 20 % das reservas de água doce do planeta. Obviamente, é fácil perceber as consequências nefastas, locais e globais, da substituição da floresta pela savana no que toca à queda na Evapotranspiração.

O verdadeiro atentado à vida e cultura das inúmeras tribos índias e de muitos outros habitantes da Amazónia internacional – são cerca de 38 milhões - causado por atividades madeireiras, agrícolas e pecuárias, de mineração, e por estradas e ferrovias, não faz parte do escopro deste artigo, mas consideramo-lo certamente gravíssimo.

Se levarmos em conta a riqueza biológica da Amazónia alargada à Classe dos Insetos e ao Reino dos Microrganismos endémicos, é fácil imaginarmos as possibilidades médicas e farmacológicas à disposição do nosso bom-senso e clarividência na região com o habitat biologicamente mais diverso do mundo. Um dado pode deixar qualquer simples mortal boquiaberto: considerando-se apenas o mundo animal, 10 % de todas as espécies conhecidas a nível do globo encontram-se na Amazónia.

São tudo razões para termos cautela, respeito e a devida apreciação pela Amazónia, essa incrível reserva natural da humanidade.

Pulmão? Discordo. Talvez Farmácia…


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