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Gaspar Corte Real era esclavagista?

Há gente que anda a viver com os fantasmas dos outros e não arranja os seus próprios.

De repente a história do ocidente passa a ser a história da opressão mundial. Foi no ocidente que se criou o comércio de escravos no Atlântico, mas não foi o ocidente que inventou a escravatura.

A escravatura é tão antiga quanto os relatos bíblicos do Antigo Testamento, o que significa que a podemos ligar, pelo que conhecemos, ao Médio Oriente.

A escravidão fazia parte da estrutura económica de muitas sociedades africanas, durante muitos séculos, antes de colonialismos e antes do comércio de escravos no Atlântico, embora a sua extensão fosse muito variada de região para região ou de tribo para tribo. O comércio de escravos africanos no Atlântico só foi possível com o envolvimento de alguns países africanos nesse tráfico.

As primeiras evidências de escravidão na China datam da dinastia Shang (II milénio antes de Cristo), onde, segundo algumas estimativas, aproximadamente 5% da população foi escravizada.

A escravidão na India parece que era acentuada nos tempos de Buda e "provavelmente existia na civilização Védica”, mas os documentos ou provas materiais não são fidedignas.

Os índios americanos e os Maias capturavam inimigos de guerra e escravizavam-nos com trabalho ou sacrificavam-nos aos seus deuses.

Foi a humanidade que inventou a escravatura e dela ninguém tem um passado limpo. Se ninguém consegue viver bem com os fantasmas dos outros seria importante que procurasse os seus.

Infelizmente continuamos com escravos nos dias de hoje.

Escravatura já lá foi, é proibida em todo o mundo, mas não significa que não exista, embora

seja ilegal. Racismo é outra coisa que convém que não se misture com a primeira, pois todas as formas de escravatura anteriormente referidas parecem-nos ultrapassadas. Há opressões em determinados países, mas isso não é equivalente a escravatura ou a racismo.

João Vaz Corte-Real, que podemos dizer ser Terceirense bem como os seus filhos, viveu parte da sua vida e faleceu em Angra do Heroísmo. Foi um navegador português do século XV ligado ao descobrimento da Terra Nova e Labrador (1472). Até lhe chamam o descobridor da América, e a famosa Pedra de Dighton, nos USA, parece atestar isso, mas há mais gente a defender que foi Cristóvão Colombo quem descobriu para o ocidente o continente americano.

Pouco sabemos da história dos Vaz Corte-Real, especialmente dos seus filhos Gaspar Corte- Real, Miguel Corte-Real e Vasco Anes Corte-Real, mas nas últimas horas descobriu-se que Gaspar Corte-Real era um racista que vendeu 57 indígenas como escravos, mas ninguém sabe a quem. Não foi em Angra do Heroísmo que o fez, talvez na Gronelândia que também foi descoberta por seu pai.

Ora, se Gaspar Corte-Real de facto vendeu ou usou indígenas como escravos foi então ele o primeiro a instalar-se numa ilha paradisíaca das Caraíbas, pois aquando da sua viagem em 1501 à Terra-Nova, na tentativa de seguir as pisadas do seu pai, desapareceu. E de onde vem essa acusação? De vários grupos de aborígenes que acreditam que ele poderá ter escravizado 57 indígenas em 1501. E por que terá desaparecido nessa data? Certamente fugiu para um paraíso fiscal.

Se Gaspar Corte-Real pode ter escravizado indígenas em 1501 e fez comércio com eles na

Europa, de facto foi o primeiro comerciante de escravos no Atlântico, pois os primeiros

escravos que chegaram ao Brasil foi em 1539 e é no seculo XVI que o comércio de escravos se inicia. Esse homem não fez nada com a Terra-Nova, que pertence atualmente ao Canadá e foi colonizado por Franceses e Ingleses, e que se saiba, Portugal não lhe interessou para nada essa terra, exceto o bacalhau das suas águas. Pelos vistos Gaspar estava apenas interessado em ir capturar 57 indígenas para os vender, quando poderia vir com a nau carregada de bacalhau. Haja paciência para tanta ignorância.

Mais dia menos dia, quem come bacalhau é racista.

Se alguém acha ofensivo ter-se descoberto a Terra Nova quando já lá havia gente, esse

conceito é relativo. João Vaz Corte Real descobriu para os ocidentais a Terra-Nova e os

indígenas canadianos descobriram que havia gente a oriente. O que uns e outros fizeram

depois disso e com essas descobertas pode ser razão de contentamento ou descontentamento, mas isso, não se mistura com racismo, porque misturar tudo isso é

ignorância e a ignorância não é um conceito racista: Existe independentemente da etnia.

É óbvio que uma determinada comunidade pode não gostar de uma estátua de alguém que é estrangeiro, como o caso de um português que fez com que outros fossem para ali pescar bacalhau. Em vez de lhe chamarem nomes, podem devolvê-la e se tiverem os seus ossinhos, também podem fazê-lo porque aqui respeitamos os nossos mortos. Não lhe atribuem os significados que ela não tem. E se, sem mais nem menos, se atribui a esse homem o epíteto de racista, então, esse epíteto deve ser retribuído.

Tem-se descoberto imensa coisa quando, a partir de manifestações contra o racismo, começaram a aparecer os WikiLeaks da História. Sempre achei que ser anti-racista era a coisa mais natural do mundo, apesar de alguns acharem que é um ato de suprema intelectualidade.

Para mim, se não é natural, então é porque há racismo. E se há racismo, a culpa não é das estátuas nem do passado, é da ignorância do presente.


Texto: Félix Rodrigues



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