• Tomaz Ponce Dentinho

Notas sobre a Encíclica Fraternidade e Amizade Social

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html

Pediram-me um comentário, tresli as 42710 palavras, percebi a estrutura, torci o nariz ao que não gostei, mas, como tinha que gostar, tentei descobrir o que me animasse para abrir o conhecimento às novidades que o Papa me trás do mundo e, com agrado, acabei por gostar ainda mais para vos dizer o bom que esta Encíclica sobre Amizade Social que complementa a Laudato Si sobre Ambiente e perspetiva uma terceira sobre economia ou sobre instituições.

Começa por lembrar São Francisco de Assis que disse que irmão é tanto aquele que está longe como o que está perto e desafia todos a um anseio mundial de fraternidade. Sistematiza as sombras de um mundo fechado no Capítulo I em que o globalismo reforça a desigualdade, em que a ideologia nos impele para um igualitarismo e em que a política responde com um populismo; em suma, propõe uma resposta de pensamento e de ação aos desequilíbrios do desenvolvimento do século XXI diferentes dos que nos oferece o liberalismo, o igualitarismo e o populismo.

Lembra, no Capítulo II, o caminho estranho do Bom Samaritano que não se preocupa com os salteadores antissistema nem com os religiosos do sistema que passaram ao lado. Trata-se tão somente da oportunidade de fazer o bem com o tempo e o dinheiro necessário, recorrendo aos serviços do estalajadeiro e recapacitando o judeu salteado para seguir a sua vida. Trata-se no fundo de confiar no amor de Deus que nos coloca em situações de amarmos o próximo no espaço e no momento, mas longínquo do nosso espaço de conforto. Quem nos esperava em Jericó pode sempre esperar e a espera ser a oportunidade para fazer bem.

O Capítulo III designa-se Pensar e Gerar um Mundo Aberto. O desafio é encontrarmos a verdade connosco, através da nossa consciência sem medo de enfrentar os sinais da culpa, e a consciência dos outros milagrosamente sentida em conversas de confiança e amizade. Trata-se também no concreto do real de relativizar o direito privado ao direito dos outros. Associei esta ideia aos diversos níveis de direito de propriedade e à hierarquia inversa proposta, segundo a minha interpretação, pelo Papa Francisco. Nesta perspetiva o direito de passagem do visitante sobrepõe-se ao direito de uso do arrendatário, que se sobrepõe ao direito do reivindicador de direitos externos ligados ao ambiente ou à sociedade, que é mais importante que o direito de propriedade de receber a renda e manter a propriedade que é, finalmente, mais relevante que o poder do Estado de definir direitos. Em suma a sabedoria da definição dos direitos de propriedade é in extremis garantir que o pobre visitante que bate à porta tem o direito de receber o bem do inquilino, defendido pelo reivindicador e segurado pelo proprietário. E quase sempre pensamos o contrário: que o Estado pode retirar direitos aos proprietários, calar os reivindicadores, extorquir os arrendatários e policiar os visitantes.

Não há dúvida que estou a ser muito abstrato da minha análise e é contra essa abstração é que escreve o Papa Francisco no capítulo IV. No concreto quer uma regulação global sobre migrações que, penso eu, assegure o seu transporte por avião e integração no emprego, na evidência de que os emigrantes são benéficos para os povos que os recebem e na certeza de que o direito de passagem e o dever de hospedagem é tão velho como a humanidade. E dá o exemplo da integração de latinos nos Estados Unidos da América ou de judeus na Argentina relembrando igualmente que a cultura que se preze é enraizada e integradora de quem vem de fora, ao nível dos países, das regiões e dos locais.

Na verdade, defende também uma política melhor no Capítulo V que vá para além do imediatismo do populismo e da postura teórica e acética do liberalismo, uma política que aprenda com as crises, designadamente a crise financeira económica e financeira de 2008/2009, uma política que cria emprego em vez de dar rendimento, que dá educação eficaz em vez de ocupação de tempos livres. O Capítulo VI refere a importância de sermos amáveis para que sejamos amados, do diálogo conducente à verdade e não no diálogo que cria consensos de mentira. Não se trata de criar um conjunto de regras de conduta politicamente corretas e intrinsecamente mentirosas, mas sim de ter a certeza de que a natureza humana criada por Deus pode gerar o bem e contar a verdade. O capítulo VII fala dos percursos para os novos encontros e na necessidade de cicatrizar feridas como foi feito na Europa do pós-guerra com a União Europeia e pode ser feito entre o Paquistão e a Índia, entre a Palestina e Israel e por aí fora.

Finalmente o Capítulo VIII, porventura o mais relevante, coloca as religiões ao serviço da fraternidade no mundo, reforçando a importância na Igreja no mundo, ao respeito pela sacralidade da vida e contra a invocação de Deus para promover o ódio e a guerra. Sabiamente termina com uma Oração ao Criador que aqui reproduzo e uma oração

Oração ao Criador

Senhor e Pai da humanidade, que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade, infundi nos nossos corações um espírito fraterno. Inspirai-nos o sonho de um novo encontro, de diálogo, de justiça e de paz. Estimulai-nos a criar sociedades mais sadias e um mundo mais digno, sem fome, sem pobreza, sem violência, sem guerras.

Que o nosso coração se abra a todos os povos e nações da terra, para reconhecer o bem e a beleza que semeastes em cada um deles, para estabelecer laços de unidade, de projetos comuns, de esperanças compartilhadas. Amen.

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