• Félix Rodrigues

O calor está a matar, de longe, muito mais do que a Covid-19

Hoje é o dia da semana que nos permite perceber se os dados diários da infeção em Portugal não estão enviesados. Normalmente ocorre diminuições de infeção de sexta para sábado, de sábado par domingo, e tem-se verificado ultimamente que nem a terça-feira é confiável em termos de consistência de dados. De facto temos hoje o número diário de infetados mais elevado dos últimos quatro dia (167 novos casos), mas corresponde a uma diminuição efetiva da infeção em Portugal, se compararmos com os valores da semana passada. O acumulado de casos de infeção no país é agora 51848 casos.

A mortalidade continua muito baixa, havendo a registar hoje apenas um óbito, valores também consistentes nos últimos dias, dando-nos indicações de que a letalidade por Covid-19 está de facto muito baixa. Acumulamos hoje 1740 óbitos. Desconfia-se de uma letalidade tão baixa como a dos últimos tempos se o vírus não se tiver tornado menos agressivo. O que é facto é que estamos com excesso de mortalidade relativamente ao normal e tenta-se justifica-la com ondas de calor.

Acerca da mortalidade em Portugal pelas ondas de calor de julho, elas não justificam os 26% das 10390 mortes no país em julho, sendo esse o valor o mais alto registado nos meses de julho nos últimos 12 anos.

Em média, morrem em Portugal por ano, devido às ondas de calor cerca de 2500 pessoas por ano, não por mês. Assim, os números referidos para a mortalidade por ondas de calor em julho (um excesso de 2702 óbitos) não têm consistência científica, mas se tal estiver correto, então em Agosto, teremos um número de mortes muito mais elevado do que em julho e isso é uma catástrofe, à qual não estamos a dar resposta. O que é certo é que neste momento, esses números não são justificados nem por ondas de calor nem por Covid-19, porque a infeção matou apenas 1,5% desse número e as ondas de calor matariam no máximo 2500 pessoas, o que significa que não se explica o excesso de 162 mortes.

Cruzemos então esses valores com a distribuição das anomalias de temperatura na superfície terrestre da NASA referentes a julho de 2020. De facto houve em Portugal um ligeiro crescimento das temperaturas máximas em julho relativamente aos últimos 10 anos, mas isso já se verificou em anos anteriores e não produziu tal anormalidade no excesso de mortalidade.

Por outro lado, os dados das anomalias da temperatura da superfície terrestre ainda estão a ser trabalhados, pelo que se acha muito precipitado já se ter estabelecido uma correlação entre ondas de calor e mortalidade. Por outro lado, as grandes ondas de calor na Europa ocorreram essencialmente na Europa Central, com máximos em França, Espanha e Itália, não em Portugal. Compararam-se essas mortalidades?

O dia do mês de julho com mais mortes em Portugal foi o dia 18, com 411 óbitos. Esse também foi o dia mais quente no país com temperaturas em tornos dos 40ºC, mas a partir de um dia não podemos extrapolar para todos, mas também não podemos dizer que temperaturas dessas não aumentaram a mortalidade, porque de facto contribuíram para isso. A imagem que aqui se apresenta é da distribuição espacial da temperatura para o dia 18 de julho de 2020.

A fazer fé na correta interpretação do excesso de mortalidade nesse dia (18/7/2020), diríamos que pelo menos 100 pessoas teriam morrido com calor em Portugal. Isso parece-me um número exagerado.




Félix Rodrigues

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