• Tomaz Ponce Dentinho

O drama da Cadeia de Valor de Leite da Ilha Terceira



O drama da cadeia de valor de leite da Ilha Terceira é o monopsónio da indústria de laticínios agravado pelo facto de ser controlada por agentes externos à Região. O preço do leite é mais baixo, são impostas multas aos produtores que excedem os limites impostos à produção herdados das famigeradas quotas, dificulta-se a gestão das explorações e perdem-se mil e quinhentos empregos na ilha devido aos efeitos diretos, indiretos e induzidos da produção de leite, forçando a emigração de três mil residentes a médio prazo e à perda de economias de escala da Ilha o que poderá levar ao encerro de atividades centrais como hospital, universidade, diocese e outras.

O cálculo é simples. Depois do fim da famigerada quota leiteira a Ilha de São Miguel, onde existe concorrência entre as fábricas de leite, aumentou a sua produção em 18,5% de 2012 para 2019 enquanto que a Terceira cresceu apenas 4,2%. De acordo com o modelo da base desenvolvido por mim e por Mário Fortuna e publicado na Revista Portuguesa de Estudos Regionais em 2019 essa variação terá criado 6600 empregos diretos indiretos e induzidos em São Miguel e apenas 600 na Ilha Terceira. No entanto se a produção de leite na Ilha Terceira tivesse aumentado 18,5% como em São Miguel, então o emprego gerado teria sido de 2100 empregos. Em suma o monopsónio da cadeia de valor de leite da Ilha Terceira custou à Ilha de 1500 empregos e 3000 residentes.

O preço do leite também é importante nesta equação. Não apenas o preço de leite anunciado pelas fábricas, mas o preço de leite efetivo definido pelas quotas e multas impostas aos produtores de leite. Na verdade, os direitos de produção impõem um custo extra por litro de leite de 0,035 Euros por litro de leite correspondendo a mais de 5 milhões de Euros por ano. Acresce a isso o facto de ser muito mais difícil para o produtor gerir a sua produção não só de acordo com a informação do preço do leite como seria espectável, mas também com a limitação à produção com a ameaça das multas. A reação dos bons produtores tem sido de comprar direitos de produção aos menos bons, mas isso é exatamente o que não é aconselhável numa sociedade que se quer desenvolver. Transferir recursos de quem os sabe usar para quem os usa pior.

A solução o Governo Regional até agora tem sido de subsidiar a produção de carne. É só agravar o que se pode melhorar. Por um lado, favorece mais quem compra carne do que quem a produz porque também a carne está sujeita a algum grau de monopsónio. Por outro lado, reduz gravemente o efeito multiplicador da produção de leite porque enquanto que um hectare de terra dedicada à produção de leite gera um emprego direto, indireto e induzido, um hectare de terra dedicado à produção de carne gera bastante menos empregos. Parece que os políticos ainda não entenderam que o mesmo hectare ocupado com a produção de leite, de carne ou de floresta tem efeitos multiplicadores na economia completamente diferentes.

Voltei a este assunto depois de uma visita de estudo a duas explorações leiteiras na Serreta. Uma com ordenha fixa, 90 hectares, 100 vacas leiteiras, novilhas de substituição e gado de engorda. Outra, cinco vezes menor com 18 hectares 26 vacas leiteiras mais gado de substituição e com ordenha móvel. Ambas racionais e rentáveis provavelmente com uma margem por litro de leite de 6 cêntimos por litro e cerca de 400 euros de subsídios por hectare (dizem-me que podem ser o dobro para explorações leiteiras- obrigado) quando são 1500 Euros por hectare na Holanda (dizem-me que podem ser mais baixas atualmente-obrigado).

Também sabemos que a transferência dos subsídios para a produção de serviços dos ecossistemas em toda a Europa, com zonas mais declivosas ocupadas com matas de endémicas, levaria a um aumento do preço do leite e bastaria um aumento e 20% nos preços para compensar os ditos subsídios. Para além disso a concorrência entre indústrias permitiria aumentar os preços e as quantidades resultando num aumento da margem de 66% ficando a agricultura com rentabilidade dos países mais desenvolvidos o que se repercutiria em toda a economia.

O Governo de até agora preferiu subsidiar a carne que tem um efeito multiplicador por hectare muito menor do que a produção de leite. Para além de, durante décadas, persistir nas quotas e na concentração das indústrias. Erros graves que espero que não sejam continuadas pela nova governação.

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