• Tomaz Ponce Dentinho

O mundo não se salva com meninos moralistas, políticos ignorantes e cientistas assépticos.

O propósito de ligar o desenvolvimento regional à gestão sustentável do mar é grande e permanece.

Foi esse desafio proposto no 27º Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional que reuniu em Angra do Heroísmo, on-line e presencial, nos dias 10 e 11 de Setembro de 2020, cerca de 180 investigadores dos Açores, de Portugal e da Europa especializados em Desenvolvimento Regional e em Sustentabilidade do Mar.





O modelo de encontro científico em tempo de Covid é bom e recomenda-se mesmo para depois da pandemia: 40 pessoas presenciais na proximidade com os oradores convidados que incluíram políticos ex-cientistas e cientistas-candidatos a políticos; mais 140 participantes on-line que interagiram em sessões paralelas on-line e assistiram às sessões plenárias; e ainda milhares de colegas que em YouTube viram as imagens e ouviram o som das sessões plenárias em inglês, sincronamente – na Índia, na Europa e nas Américas – e assincronamente em todo o mundo.

Embora a interacção entre os cientistas do desenvolvimento regional e os cientistas da sustentabilidade tenha passado pouco para além do respeito e do interesse pela novidade que os outros traziam, o que é certo é que a proximidade de 40 pessoas de uma e de outra comunidade científica permitiu vislumbrar as aberturas que cada um pode e deve fazer para compreender melhor a relação entre a sustentabilidade do mar e o desenvolvimento regional.

A primeira coisa que devemos fazer ambos é considerar que o objecto de análise é o mar, os continentes e a atmosfera que interagem e o homem que aí vive para interagir entre si e com o mundo.

Para os cientistas regionais não basta considerar o espaço como uma superfície fixa e asséptica onde interagem pessoas com o custo da deslocação; muito para além disso é urgente atender a um espaço que é ecossistema e que, no caso do mar é fluido, potenciando externalidades positivas e negativas que se movem e que não se resumem à meteorologia que, agora damos conta, o próprio homem também influência.

Para os biólogos e cientistas do mar não basta estudarem as reservas / quintas que queiram criar para gozo próprio, porque o objecto de análise não é o ecossistema sem o homem, mas o ecossistema com o homem. E o homem não é mais um predador pronto a ser morto por outro num climax de morte, que à distância do cientista asséptico, até pode ter a beleza macabra de uma paisagem ou de um oceano que presumidamente se conhece.

Muito para além desse homem/animal o homem/homem sonha com a sustentabilidade do belo, do bom e do bem que recebeu e por isso quer saber, por exemplo, quanto e como pode pescar, não só para manter o habitat e o ecossistema do peixe que o alimenta e acultura, mas também para que o ecossistema se complete com a sua gestão (não basta um São Francisco italiano e sonhador; é preciso um Santo António, português e holístico). Quem disse que o ecossistema intocado e selvático é melhor do que o ecossistema que, sonhado holisticamente, pode ser sabiamente gerido pelo homem. Mas se quem quer saber quer aprender apenas o que se passa no ecossistema intocado ou, na outra perspectiva, conhecer o homem sem ecossistema, então certamente não aprendemos nada, gerimos mal e vivemos pior. O Covid ensinou-nos que o objetivo não é apenas evitar o contágio, mas sim manter as pessoas saudáveis, manter os empregos e mais além.

Em suma o mundo não se salva com meninos moralistas, políticos ignorantes e cientistas assépticos. É para pessoas que querem aprender como cientistas e agir como políticos para cumprir o mundo que ainda sonham como meninos.

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