• Tomaz Ponce Dentinho

Os Noivos*

Quando Gioachino Rossini morreu em Paris a 13 de Novembro de 1868, o compositor Giuseppe Verdi (1813-1901) escreveu: Partiu deste mundo um homem insigne, o mais celebrado, o mais conhecido e reputado nome do nosso tempo, e uma glória da Itália! E quando a outra, que ainda vive, deixar igualmente de existir, o que teremos deixado nós?

A outra glória de Itália era, claro está, o autor do romance I Promessi Sposi [trad. port. Os Noivos, col. Biblioteca Indispensável, ed. Paulinas, Março 2015], que Verdi (e todos os da sua geração) admirava profundamente ao ponto de, cinco anos mais tarde, lhe dedicar a sua única Messa da Requiem, estreada em Milão a 22 de Maio de 1874, um ano exacto após a morte do romancista, vítima de meningite que lhe sobreveio depois duma queda nas escadas de sua casa, aos 88 anos. Manzoni era (e ainda é) o mais importante escritor do Romantismo italiano, defensor, tal como Verdi, do Risorgimento, o movimento histórico-socio-político-militar que conduziu a Lombardia à libertação do domínio austríaco dos Habsburgos-Lorena e, mais tarde, toda a Itália à unificação (admiravelmente descrita no romance Il Gattopardo [1957] do aristocrata siciliano Tomasi di Lampedusa [1896-1957] ou no filme Senso [Sentimento, 1954] desse outro aristocrata milanês, Luchino Visconti [1906-1976]).

Os Noivos é a obra literária mais lida e amada de Itália depois de A Divina Comédia, e Manzoni um émulo de Dante, tendo tido, tal como este último no séc. XIV, um papel insubstituível na fixação do italiano como língua unificada, em especial (mas não apenas) do ponto de vista literário. Com efeito, com a edição definitiva de 1842, o romance é o primeiro texto narrativo a estabelecer o italiano moderno como língua oficial da Nação emergente.

O enredo de Os Noivos anda à volta do par amoroso composto por Renzo (Lourenço) e Lucia (Lúcia), tão prometidos um ao outro como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Paulo e Virgínia ou Simão e Teresa, mas sem a tragédia final da morte física e do acabar da felicidade terrena. Todo o romance é construído nessa ténue fronteira chamada Providência que é o fio da navalha entre ventura e desventura, reunião e separação, bem e mal, vida e morte, que sustenta toda a trama e que Leonore, a heroína do Fidelio de Beethoven, relembrara já a Florestan, seu marido: Es gibt eine Vorsehung! — «A Providência existe!»(1). A Providência, esse outro nome de Deus, escondida atrás do adjectivo promessi do título do romance que, em rigor, devia dar na tradução portuguesa apenas Os Prometidos, alternativa menos poética mas mais literal do que Os Noivos. Deus quer, Renzo e Lucia sonham, a obra nasce. Assim se cumpre a Escritura, que diz Nem para sempre se há-de perder a esperança dos infelizes (Salmo 9, 19).

Escrito num tom popular engenhosamente artístico, sincero, claro, vigoroso, supremamente elegante e musical, o romance estrutura-se, ao longo de quatro partes narrativamente separadas por três histórias diferenciadas, que ligam cada parte entre si, numa perspectiva telescópica, isto é, cada vez mais fazendo referência a espaços e acontecimentos que vão do particular ao geral, do pequeno lugarejo lombardo à grande Europa em plena ebulição da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), englobando camadas exegéticas sucessivas que assim dão azo, no final, a um extraordinário fresco de personagens e acção(ões) inesquecíveis. Assim, depois de uma Introdução ou Prólogo (que dá ao seu autor a oportunidade de se servir do mesmo subterfúgio literário de Camilo em Amor de Perdição — o recurso (tópos), como ponto de partida, a um manuscrito encontrado mais ou menos por acaso que conta uma história antiga mas demasiado bela para ser ignorada, revelada no subtítulo História milanesa do séc. XVII descoberta e reescrita por Alessandro Manzoni), a primeira parte (cap. I-VIII) introduz os personagens fictícios: o par de heróis, a mãe da noiva, o sacerdote do lugar, a sua serviçal, o frade capuchinho, o vilão sem escrúpulos; a segunda parte (cap. XI-XXI) chama à cena os personagens históricos: depois da freira de Monza, na vida real Dueña Mariana de Leyva y Marino (cuja história ocupa os cap. IX-X), surge o cardeal Federigo Borromeo (primo direito de S. Carlos), e Bernardino Visconti, o Inominado (cap. XX-XXI), cuja história introduz a terceira parte (cap. XXII-XXVI), que finaliza na descrição do surto de peste (também histórico) em Milão (cap. XXVII-XXXII,) e desemboca na quarta e última parte, reservada ao desfecho que envolve os personagens iniciais (cap. XXXIII-XXXVIII). A acção decorre entre 1628 e 1630, em pleno domínio espanhol do Ducado de Milão, que transitou depois para o domínio dos Habsburgos austríacos com os tratados de Utrecht de 1714, a pôr fim à Guerra da Sucessão espanhola.

Quando, em 1845, o chanceler austríaco Metternich declarou no parlamento que a palavra Itália representava apenas um grupo de Estados independentes, ligados unicamente pelo mesmo nome geográfico (“Península Itálica”), descreveu o status quo que existia desde a queda do Império Romano do ocidente, no séc. V. Por aqui se vê a importância da unificação italiana não só para os dirigentes políticos, mas para os artistas e intelectuais do tempo de Manzoni, dos quais ele foi o máximo expoente literário.


Texto de José Maria Saldanha, Serreta


* de Alessandro Manzoni (7 Março 1785-22 Maio 1873)

(1) II cena do II Acto, libreto de Joseph Sohnleithner e Georg Friedrich Treitschke, 1814.



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