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Pode-se fazer um país com tribos?


Lendo Harold Innis no meu primeiro ano em Avalon aprendi que não se pode fazer um país com tribos e que, nessa evidência, nem Israel ou a Palestina tribais, nem o multiculturalismo Americano, Francês ou Alemão seriam viáveis. Noutra parte qualquer do mundo, em amena conversa com Roger Stough, que morreu o ano passado de uma complicação de uma operação ao joelho magoado pelo futebol americano de há décadas, provoquei-o dizendo-lhe que os Estados Unidos eram tribais. Tomaz, tribais como o Iraque? Disse ele. Exatamente, tribais como os Iraquianos, com todas as vantagens e inconvenientes do tribalismo: facilidade de encontrar os bons e os maus como no Senhor do Anéis, mas muito mais problemas no discernir do bem e do mal, como na Rússia tribalíssima de Dostoievski.

Ficámos por ali porque ambos gostávamos de viver naquela fronteira entre as tribos

protestantes e católicas, herdeiras de Ismael e de Isaac, de Esaú e de Jacob, e na contenção regrada de uma civilidade agradável: “upper class predictable” como dizia de uma austríaca com boa pinta em terras eslovacas, minadas por eslavos e húngaros, por sua vez separáveis em judeus, ciganos e hunos, todos eles pretensamente europeus, e que agora apelidamos de populistas fascizantes, e antes dizíamos de comunistas retrógrados; ou serão apenas tribos dominantes como existem em todo o lado avessos à mudança mas submissos à catástrofe?

O que me causa interrogação é que o Padre Francisco Dolores, de inegável sabedoria, nos conta que a integração social demora cerca de trezentos anos; na verdade nunca acontece porque passados esses anos a maior parte dos descendentes que chegaram já partiram. Se assim fosse lá para 2400, teria um descendente terceirense só que hélas, vivia na América.

Para trás talvez ficasse um tipo aqueles que me deram boleia em Oxford de uma aldeia para a outra onde havia um bonito e barato palácio dos filmes onde fiquei instalado. Dizia o simpático senhor que me deu boleia: a minha família é daqui há trezentos anos, mas a da minha mulher é de além há duzentos. Achei um despropósito vindo de uma moradia em banda e no entanto o sentido de pretensa era tão grande como o de Roger Stough colono alemão na Pensilvânia de alguns séculos a esta parte. Ainda bem que assim é porque, assim como assim, é melhor ter duas raízes, em Elvas e em Olhão, que se multiplicam em quatro por Portalegre e Cacela, e depois por oito em Talavera, Sevilha, Aveiro, Brasil, América e Tavira; e a partir de Lisboa sabe- se lá para onde? Talvez para o Norte, acima de Fátima, com o nevoeiro frio das tribos bárbaras e celtas; são bons amigos esses fósseis do Norte.

Na verdade, não entendo como se pode ser tribal quando todo o amor é anti tribal e

reprodutor. O Romeu apaixona-se pela Julieta, a Carmen cigana enamora-se com o Marialva, a sedentária quer casar com o forasteiro e o segundo filho vai procurar destino por outro lado. O que os filmes e os romances contam é a realidade maravilhosa do amor civilizado e anti tribal e não o desastre anunciando de casamentos entre conterrâneos e parentes. Como dizia em torno de uma cerveja a um novo colega de Newcastle chegado de Londres “Tens que não perder a oportunidade de conquistar a miúda simpática do Norte que tem um gabinete do corredor de lá!”. E assim foi, namoraram, casaram e tiveram muitos filhos.

Uma questão desimportante e, no entanto, relevante é a terra. E sobre a terra vale a pena lembrar a Prémio Nobel, Eleanor Osborne que diz que há muitos direitos de propriedade: de passagem, de utilizador, de reivindicador, de proprietário e de possuidor. A maior parte de vezes estamos de passagem por terras de parentes e amigos já que o cuidado de rendeiro dá muito trabalho e risco. Todavia cabe-nos por vezes a responsabilidade de sermos servos das terras como proprietários embora alguns pensem que são possuidores. Pouca sorte tem, porque outros virão reclamar a caça e a biodiversidade, a água e a energia, os impostos e o controle dos subsídios.

E aqui está o drama de Israel, da América e dos Bárbaros. Israel esqueceu o nomadismo urbano e tenta expulsar os terra-tenentes palestinianos em vez de se integrarem pelo casamento. A América também se esqueceu que havia proprietários daquela imensidão e em vez de celebrarem o casamento do “Dança com os Lobos” com a filha de franceses e de Índios, preferiram dizer que a terra era do Estado a alocável aos dentro-da-lei que nunca se enraizaram. Também tentámos fazer isso em África nos anos cinquenta e sessenta numa imitação menor dos bárbaros do apartheid e, manifestamente, saímo-nos mal.

Em suma os territórios são locais de liberdade civilizacional de não de escravidão tribal. E os acordos de passagem, de utilização, de reivindicação de serviços aos outros, e da responsabilidade do proprietário são fundamentais para cumprir a cidade. Em Portugal e nos Açores vamos sabendo como é, mas nada é garantido. Basta que a terra passe a ser de alguém de desenraizado, privado e dos Estado, para que as lagoas fiquem poluídas, para que as florestas ardam e para que as povoações se desertifiquem “Aconteceu no Oeste”, está acontecendo por aqui. As tribos destroem os sítios e os países.


Texto: Tomaz Dentinho

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