• Félix Rodrigues

Portugueses na Califórnia: Opinião de Diniz Borges, diretor do Portugues Beyond Borders Institute

Autora: Tatiana Ourique / extraído do Açoriano Oriental Online

Dirigiu durante 30 anos o programa de televisão Os Portugueses no Vale e presentemente faz em nome do PBBI um programa de rádio diário, em inglês sobre a comunidade portuguesa, maioritariamente açoriana da Califórnia. Diniz Borges colabora, ainda, semanalmente com jornais dos Açores e da diáspora. Tem publicado alguns livros e tem-se dedicado ao estudo das comunidades e à tradução de, particularmente, poesia açoriana para inglês e também de autores açor-descendentes para português. Açoriano Oriental - Como tem sido o seu envolvimento com a comunidade portuguesa na Califórnia? Diniz Borges - A comunidade portuguesa tem sido a minha vida. Desde que cheguei à Califórnia com 10 anos que sempre vivi ligado à nossa comunidade. Tudo o que fiz foi sempre imerso na comunidade. Se algum dia sair da comunidade, não sei se conseguirei que a comunidade saia de mim. Sempre fui um açoriano na Califórnia. A.O. - Que peso tem a diáspora açoriana na comunidade portuguesa na Califórnia? D.B. - A açorianidade é a comunidade portuguesa da Califórnia. Sem a nossa diáspora açoriana não havia comunidade portuguesa neste estado. Apesar de não haver dados oficiais, dizem que representamos mais de 90% da presença portuguesa na Califórnia e os dados que temos da nossa emigração açoriana para este estado, justificam-no. Os Açores estão presentes em todos os aspetos da presença portuguesa na Califórnia e o imaginário açoriano, a criatividade literária açoriana, sempre teve um lugar especial para com a nossa emigração para este estado. Acho que seria muito bom que começássemos cada vez mais a falar da açorianidade na Califórnia. A nossa herança atlântica, a nossa cultura de ilhéus, está patente em todas as organizações portuguesas na Califórnia e o que mais se ouve nas várias gerações de açor-desdentes é o orgulho pelas ilhas dos seus antepassados. A presença portuguesa na Califórnia passa pelos Açores. A.O. - Que projetos açorianos destacaria no estado da Califórnia? D.B.- Diria que as vivências da nossa comunidade, desde os emigrantes até às segundas, terceiras e sucessivas gerações é o grande projeto da açorianidade na Califórnia. O seu orgulho pelas ilhas dos seus antepassados, a sua constante identificação como portugueses dos Açores, o seu fascínio pelas ilhas e por tudo que é açoriano é o que se destaca. Há um trabalho a fazer - e que até tem vindo a ser feito- no âmbito de registar essas vivências e aglomerar as sinergias dos açor-descendentes para uma outra aproximação com o arquipélago. Penso ser importante que os Açores e a Califórnia continuem, pós-pandemia, uma nova aproximação que se havia iniciado, e que essa aproximação ligue, cada vez mais, setores como dissimilares como a agricultura, a tecnologia, as energias renováveis, as artes e o diálogo cultural. Ultrapassado o ciclo das “cartas de chamada” e das cartas da América com o dólar que o carteiro trazia todas as semanas, acredito que a açorianidade da Califórnia pode contribuir muito para os Açores e há imensos projetos que podem beneficiar o arquipélago e ao mesmo tempo servirem de força única que mantenha viva a chama da açorianidade nas vivências californianas. Temos que caminhar para projetos que nos liguem como açorianos que todos somos, vivendo em geografias diferentes, mas unidos pelo bem-estar do arquipélago e pelos laços culturais e idiossincráticos que nos ligam independentemente onde vivemos. A.O. - Como e com que propósito nasceu o Portuguese Beyond Borders Institute? D.B. - O PBBI nasceu depois de um projeto que a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) promoveu (e ainda promove) de intercâmbio entre a faculdade das ciências agrárias e tecnologia da universidade estadual a Califórnia em Fresno e o polo da ilha Terceira da Universidade dos Açores, que foi um trabalho da fundação das cidades irmãs em Tulare e do Presidente da Câmara de Angra do Heroísmo, Álamo Meneses. Depois de dois anos de intercâmbio chegou-se à conclusão de que havia a necessidade do projeto ser mais aglutinador e abrangente. Daí que foi criado o Instituto com o apoio da FLAD e da comunidade, para expandir a presença portuguesa na universidade e criar um Instituto que englobasse as várias áreas do conhecimento e da pesquisa em torno do legado português, e mais concretamente açoriano, na Califórnia. O PBBI tem a particularidade de ser multidisciplinar e daí estar simultaneamente em três faculdades da universidade estadual da Califonia em Fresno: faculdade das artes e humanidades; faculdade das ciências agrícolas e tecnologia e faculdade das ciências sociais. Esta é uma mais valia para a nossa comunidade e para os objetivos do PBBI, daí uma mais valia para a região Autónoma, para Portugal e para a lusofonia. A.O - O que já conseguiu concretizar no PBBI? D.B. - O PBBI foi inaugurado em fevereiro de 2019 pelo Presidente do Governo da Região Autónoma dos Açores Vasco Cordeiro. Desde o primeiro dia que queríamos que o Instituto estivesse intimamente ligado ao arquipélago e às vivencias açor-californianas. Através do curto espaço de um ano e meio já conseguimos criar um espaço para as histórias orais da nossa emigração e das nossas vivências açorianas e portuguesas na Califórnia. Esse é um projeto que deverá continuar por muitos anos e com vária etapas. Estamos na fase final de produzirmos um documentário videográfico sobre as experiências açorianas no vale de San Joaquim, na Califórnia. Criámos uma série de palestras sobre o mundo português, com destaque para os Açores, que neste momento têm sido virtuais. Iniciámos com a colaboração da Califórnia Portuguese-American Coalition (CPAC) uma série de painéis para se debater assuntos pouco comuns na nossa comunidade, desde o racismo ao sexismo, painéis que são arquivados. Criámos um espaço anual para trazer-se à universidade centenas de alunos que estudam a língua portuguesa nas escolas secundárias do Vale de San Joaquim, com o intuito de lhes incentivar um percurso académico e promover o ensino da língua portuguesa. Concebeu-se o Azorean Diáspora Project (ADP) que tem por objetivo aproximar os Açores à Califórnia (e levar a Califórnia açoriana aos Açores) através do conhecimento e das ligações que a nossa diáspora possui neste estado. Gerou-se um projeto com o Departamento de Linguística para criarmos formação e oportunidades dentro do nosso movimento associativo para ensinarmos a língua portuguesa às novas gerações através das histórias do passado e usando o “know-how” das gerações mais idosas, constituindo-se uma ponte entre as várias gerações através do ensino da língua portuguesa e das histórias populares açorianas. Estamos a criar projetos com outros institutos da universidade para parcerias que deem oportunidades a maiores intercâmbios nas ciências agrárias, na tecnologia, na comunicação social, na história, na literatura, nas ciências políticas e no mundo empresarial. E temos outros projetos em fase de embrião, como a criação de uma editora académica dentro do PBBI, dedicada a estudos ligados à comunidade e à presença portuguesa e açoriana não só na Califórnia, mas na costa oeste dos EUA, incluindo o Havaí. A.O. - Que sonhos tem para este instituto? D.B. - A minha santa avó dizia que “sonhar é fácil.” Penso que o instituto, se a comunidade o quiser (e tem dado indicações que quer) e as entidades (universitárias e públicas) o entenderem (e acho que o entendem) podemos criar um espaço único para a nossa comunidade na Califórnia, sendo simultaneamente um repositório do legado que os portugueses, maioritariamente açorianos, construíram na Califórnia e crie condições para as novas ligações que todos queremos entre a região e a sua diáspora e a partir dessa ligação uma abertura total ao mundo lusófono. A.O. - Como é que a comunidade portuguesa na Califórnia vive este momento político nos EUA? D.B. - Temos uma comunidade diversificada e com opiniões políticas diferentes, mas que se unem em torno dos interesses dos Açores. Há apreensão e há divisões que são naturais em democracia, diria mesmo saudáveis para o processo democrático. Tenho sempre medo quando a democracia anda, como se dizia na minha Canada dos Pastos “acomodada.” Daí que as divisões que se vivem na comunidade são meros respingos do atual momento americano. A Califórnia tem sido um estado tremendamente progressista e a comunidade acompanha esse progresso. A.O. - Qual é a tendência política dos portugueses nos EUA? D.B. - Eu preferia limitar-me à Califórnia que é a comunidade que conheço melhor. Os dados que tenho, concretos e emitidos pelo secretário de estado da Califórnia, dizem-nos que 40% dos californianos que se identificam como sendo de origem portuguesa são filiados no Partido Democrático, (43% na população geral do estado); no Partido Republicano 30% (na população geral do estado 24%) e independentes 28% (na população geral do estado 30%). O resto dispersa-se por pequenas forças políticas. Portanto como podemos verificar somos muito similares ao resto do estado o que desfaz a generalidade que tem sido alimentada pela comunicação social nacional que os portugueses e luso-descendentes são “todos” desta ou daquela força política. Estamos mais ou menos dentro dos parâmetros do resto do estado, e penso que o mesmo a nível de país. Há zonas mais conservadoras e outras mais progressistas. Na generalidade a maioria da comunidade é consensual e moderada. A.O. - Que consequências poderão trazer uma reeleição de Donald Trump ou uma eleição de Joe Biden para os emigrantes açorianos? D.B. - Acho que as repercussões destas eleições presidenciais na nossa comunidade, para emigrantes e açor-descendentes, são as mesmas que os nossos vizinhos e amigos de outras etnias e outras culturas terão. É essencialmente uma eleição para o destino da América e claro que terá reverberações em todas as comunidades que compõem o multiculturalismo americano. Há consequências diferentes, porque há posições antípodas. Os emigrantes clandestinos açorianos, por exemplo, que vivem nos Estados Unidos, muitos desses na Califórnia, certamente que terão desfechos diferentes. O relacionamento internacional dos EUA, que também passa pelas nossas ilhas, e daí pela nossa comunidade, será diferente. As eleições têm consequências para todos os cidadãos e nós emigrantes e açor-descendentes não estamos imunes a esses desfechos. O que peço é que não nos esqueçamos da nossa história, de que também fomos e somos emigrantes, que também tivemos refugiados, o Azorean Refugee Act; que também amassamos o pão que o diabo não queria amassar; que também sofremos discriminação; que também fomos e somos estrangeiros em terras californianas. E que apesar de todas as nossas atribulações, os açorianos sempre tiveram uma visão universalista. Que apesar de vivermos em ilhas, muitas vezes abandonadas pelo Terreiro do Paço, sempre demos saltos para todo o mundo e soubemos interiorizar esse mundo. Acho que se os açorianos, e açor-descendentes, continuarem fiéis a si próprios e à cultura ancestral, que é insular, mas é universal, saberemos sobreviver no grande mundo americano. É que ser o que chamo “americanos à pressa” não nos ajuda como cidadãos e como povo.

Fotografia de Diniz Borges publicada no Açoriano Oriental.



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