• Félix Rodrigues

Professor Tomás Dentinho afirma que há quem defenda a colonização dos Açores

O plano estratégico para recuperação da economia do país até 2030 sustenta que os Açores são uma "oportunidade de ouro". Para o economista Tomaz Dentinho, entrevistado pelo jornal Diário Insular essa oportunidade não será para os açorianos.

De seguida publica-se a entrevista concedida ao Diário Insular.


A "oportunidade de ouro" para o país contornar a crise está nos Açores, defende o documento "Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030", entregue por António Costa Silva ao Governo da República. Que importância espera que este documento venha de facto a ter, uma vez que muito se tem falado sobre o potencial dos Açores, mas há projetos que demoram a avançar?


O documento defende na verdade a colonização dos Açores, sem grande benefício para os açorianos. Por um lado, com uma Universidade Atlântica que tudo indica será como o controle do trafego aéreo de Santa Maria, que dos Açores só tem o nome, sendo as suas instalações e empregados em grande parte sediados em Lisboa. Por outro lado, com a exploração dos muitos recursos do mar e do ar dos Açores, com vantagem para os de fora e alguns sipaios residentes.


É de novo levantado o abastecimento de GNL no porto da Praia da Vitória como uma prioridade. Que importância teria para a ilha?


O abastecimento de gás natural liquefeito na ilha não traz grande valor para além do que já existe. A armazenagem de combustíveis é uma versão nova do que já houve no tempo dos americanos, que tanta celeuma tem dado na poluição dos aquíferos. Mesmo assim, não representa muito mais do que aquilo que já tivemos e cujos efeitos na economia da ilha e na Região não foram significativos. Não se justifica a sua nomeação num documento que pretende ser marcante. O que seria marcante seria uma refinaria de petróleo, como há anos esteve pensada por investidores brasileiros, mas que os continentais não quiseram que se desenvolvesse, porque seria concorrencial de Sines. O que seria marcante era a criação de um hub de low-costs atlânticas no aeroporto das Lajes, mas a TAP e a SATA têm pavor dessa ideia. O que seria impactante era um local de transferência de contentores no porto da Praia da Vitória, mas os americanos e europeus, junto com os submissos portugueses, não gostariam que a Terceira reganhasse à centralidade que teve no século XVI e para que está vocacionada. E os de cá preferem lutar por pensões de reforma e rendas de portos vazios.


Uma grande Universidade do Atlântico é um projeto que é muito defendido no documento. Acredita que se concretizará?


Quando por duas vezes concorri para a reitoria da Universidade dos Açores propus e demonstrei que era possível passar dos 4000 alunos que a universidade tinha para 6000 alunos, apenas com os alunos provenientes dos Açores se abríssemos cursos com procura local em direito, arquitetura, geografia, medicina e engenharia em Ponta Delgada e em gestão; veterinária, paisagismo, filosofia, direito, economia, medicina do território, engenharia e gestão, educação física, jornalismo, teatro e técnicos de saúde em Angra do Heroísmo. E com 6000 alunos há 600 docentes e investigadores que podem especializar-se em domínios competitivos a nível internacional e assim atrair alunos de mestrado e doutoramento de todo o mundo, podendo chegar a 12000 alunos, como aliás acontece em cidades de Gales e da Escócia mais pequenas que a Horta. Tudo isto demora anos porque os 1000 docentes e investigadores têm que se enraizar nos Açores e ter ou criar condições para que os seus filhos estudem por aqui e, se quiserem, terem emprego por cá.É fácil dizer que temos uma Universidade Atlântica com equipamentos de recolha de dados do mar e da atmosfera e com investigadores localizados em Lisboa e Porto, mais os amigos no resto do mundo, com um ordenado extra pela Universidade Atlântica com dinheiro emprestado da Europa. Mas isso não tem qualquer efeito no desenvolvimento regional a não ser dar emprego a técnicos de limpeza que vão limpar edifícios vazios e equipamentos caros.Se querem fazer a Universidade nos Açores deixem-nos fazer uma universidade em Angra com as mesmas regras de jogo que a Universidade dos Açores (de Ponta Delgada), a Universidade de Lisboa e as outras. Sabemos como fazer passo a passo. Mas não nos tirem os alunos com dinheiros dos Açores, com dinheiro para irem estudar para fora através de contingentes que só os fazem chumbar e regressar, sem estimular a melhoria no ensino secundário (que mais abandono tem no país). Nem nos digam que somos caros porque não precisamos de mais dinheiro por aluno do que os outros. E se não houver apoio nenhum do Estado às Universidades também não precisamos disso, porque só não é viável fazer uma universidadeprivada em Angra porque a pública é subsidiada apesar de não ter alunos suficientes.Com 80% de cada ano a ir para a Universidade, temos 1500 alunos de licenciatura só da Terceira e basta que paguem 3000 euros por ano, bem menos do que pagam para estudar lá fora, com uma receita total de 4,5 milhões por ano. Com cada professor a dar cinco disciplinas e com algumas disciplinas de cursos sobrepostas conseguimos garantir a docência com 50 professores que custam 2,5 milhões de euros por ano. E a competição com as melhores faz o resto em 10 anos. A Universidade dos Açores de Ponta Delgada limitou o desenvolvimento da universidade em Angra por 40 anos. A anunciada Universidade Atlântica adia o processo de criação de universidades nos Açores em mais 10 anos, porque todo o investimento se esvai para fora. No fundo, é isso que quer quem a quer promover.


Que papel devia ter e tem a Universidade dos Açores capacidade para ter nesse projeto?


A Universidade dos Açores tem que dar total autonomia aos docentes para promoverem cursos e investigação, cujo sucesso é medido pela procura e qualidade dos alunos, pelos pares e pela sociedade. Quando a universidade se vira para dentro e de mão estendida para fora, passa de 4000 alunos para 2000, as jovens equipas de investigação perdem o sonho de fazerem docência e investigação autónomas e, com falta dessa esperança e criatividade, a universidade deixa de o ser. Passa a ser um nome para recolha de dados e docência de uns cursos sem empregabilidade. O projeto de uma "grande" universidade nos Açores foi apresentado há três e sete anos e a UAç não o quis. O resultado está à vista, com uma universidade com 2000 alunos e de mão estendida. Felizmente, tem ainda boas equipas de docência e investigação e, como nenhuma outra à exceção da Madeira, Lisboa e Porto, uma "bacia de apanhamento" própria que lhe permite em quatro anos chegar a 6000 alunos. Basta ter cursos com empregabilidade que os açorianos escolham em todas as ilhas com condições para os dar como já referi acima. E havendo procura é possível mobilizar professores, muitos deles açorianos, que preferem viver nas suas ilhas do que em universidades do Continente ou do estrangeiro. O Nuno Martins, esteve por cá três anos, mas acabaram com o curso de gestão e é agora professor catedrático da Universidade Católica do Porto. Outros foram para Lisboa, para Évora e para fora por razões semelhantes. O problema é que, de um lado, temos uma sociedade que, na verdade, não quer universitários nas suas entidades e empresas; quer "doutores" e "engenheiros" a fazer os mesmos trabalhos de rotina que outros faziam, mas não quer pessoas que pensem o que se está a fazer. E, do outro lado, temos uma universidade que,na sua maioria, se contenta com funcionalismo em vez de competirem internacionalmente com trabalho e humildade; necessariamente também olhando e estudando a realidade que lhes é próxima, rompendo com o senso comum, como é função de qualquer universitário. Bastam cinco por cento para mudarem e os reitores tentaram mudar. Mas mudaram invocando custos da desconcentração criativa e num sentido que não foi o melhor, pelo menos em termos do número de alunos que uma grande Universidade Atlântica requer. Quem os elegeu e apoiou no Conselho Geral também é responsável por esse falhanço. Pensam que são poucos e bons, mas a pequenez restringida limita tudo.


Concorda que a Base das Lajes devia ser reconvertida num centro tecnológico avançado, com ligação a essa Universidade do Atlântico?


A Base das Lajes é um aeroporto e deve ser isso mesmo. E como é um aeroporto com comprovada centralidade aeronáutica terá possibilidade de se constituir num hub interessante para algumas companhias low-cost que comecem a explorar as rotas atlânticas onde esse tipo de companhias ainda não se aventurou. Mas para isso é necessário acabar com as restrições da Força Aérea, os anseios da TAP e da SATA, os medos de Ponta Delgada e de Lisboa e a subserviência aos americanos. Depois, com um aeroporto com movimento passa a haver sinergias para o lançamento de foguetões podendo competir com Santa Maria se quiserem ir para lá; e complementaridades com o porto da Praia se tiver uma refinaria, um transbordo de contentores a relocalização da incineradora tão mal localizada para receber lixo do arquipélago, e ainda dá para uma marina até metade do Paúl e para a Nova Praia desenvolvida em torno dela, em vez de admitir guetos de bairros sociais e de americanos, porque guetos podem dar um dinheirinho aos proprietários dos terrenos mas não fazem cidade.


Tem Portugal capacidade para explorar as riquezas que o fundo marinho dos Açores guarda, sobretudo com a extensão da plataforma continental?


O Estado português e a Região Autónoma dos Açores têm o dever de regular o uso sustentável do mar, incluindo a extensão da plataforma continental. E podem começar por reaver o que trocaram com Bruxelas para darem aos espanhóis a troco de autoestradas vazias para o Continente. Sejamos claros. Os fundos europeus não têm qualquer efeito no desenvolvimento dos Açores (como não têm em sítio nenhum onde foram usados). A Europa é uma péssima reguladora dos mares que estão a seu cargo e é por isso que países e regiões mais sábias e autónomas como a Noruega, a Islândia, a Gronelândia, as Ilhas Faroe e, recentemente, a Grã-Bretanha, não fazem parte da Europa, nem colocam os mares a seu cargo. Sendo assim, é preciso que a gestão do mar seja localizada para cada porto e só assim surge a gestão sustentável do mar e o desenvolvimento regional das comunidades marítimas, que, por sua vez, procurarão os melhores cientistas para os ajudarem na gestão e pedirão aos países a necessária proteção das suas atividades.


Depois deste plano, quanta esperança devemos ter?


Com este plano Portugal desaparece, porque é gastar mal e a favor de terceiros o dinheiro que dizem trazer e que rapidamente levam com ainda mais dívida. A única coisa que se deve fazer é responsabilizar o Novo Banco, a Caixa Geral de Depósitos e os outros bancos que ainda são portugueses pela gestão dos 15 mil milhões de euros, na seleção de projetos, com a responsabilização dos economistas e engenheiros que assinaram projetos inviáveise cujos spreads de risco possam ser transformados em amortização de capital em dívida ano a ano. Assim se consegue reduzir a dívida das empresas e aumentar a sua capitalização. Até as obras púbicas previstas do metro de Lisboa e do Porto devem ter viabilidade assegurada. Quanto ao novo aeroporto de Lisboa o melhor é promover a competição entre Alverca, Portela e Tires ligando-os por comboio suburbano. E, nos Açores, autonomizem os campus universitários e os seus docentes, como se faz em qualquer universidade no mundo. E deixem a Base das Lajes ser aeroporto e o porto da Praia ser porto. Sobretudo, esqueçam os custos de insularidade que aqui só há vantagens por explorar, limitadas pela pedinchice e restrições. Nisso, o professor António  Costa Silva tem razão. Os Açores têm uma potencialidade enorme, mas não é com pedintes e polícias.


Composição fotográfica de Chrys Chrystello.


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