• Tomaz Ponce Dentinho

Quando o mundo se desliga do real a conversa é ideológica, surda e muda.

“Em Portugal as touradas deveriam ser como o ensino é lá fora; gratuitas e obrigatórias”. Dizia assim o estrangeirado lisboeta Eça de Queirós na frase de um dos seus personagens. Disse-o numa perspectiva estética desligada da ética dos sítios de que saberia pouco porque pouco a vivera. Mas é nessa frincha de inconsistência que a ideologia consegue entrar perniciosa.

Eça sabia, como sabia Hemingway, que a verdade ainda está nos pueblos de Espanha, nas Ouguelas, Monsarás e Naves de Haver de Portugal e nas freguesias da Terceira como sabemos. Porventura até terão dado um quite a um touro ou pegaram uma vaca, mas não sei se tiveram a sorte de participar na criação da festa.


Foi preciso vinte anos de Terceira para me convidarem para uma comissão das festas. Ao meu filho, da terra, bastou um dia de retorno; e bem, a terra educa. Mas ambos teremos percebido que, como dizia o pai de um e o avô do outro, que a cultura dos touros começa no culto.

Aqui é no Culto ao Divino Espírito do Santo. Na Moita é o culto a Nossa Senhora da Boa Viagem. Em Elvas é o culto ao Senhor Jesus da Piedade na festa de São Mateus. E esse culto de promessas e unidade junta naturalmente os esforços de todos, dos crentes e não crentes que se conhecem daqui e de fora; e dão de acordo com o que podem dar, como dão na Igreja, como vamos aprendendo a saber. O Estado não deve entrar porque estraga.

É desse dinheiro verdadeiramente público e não de dívidas do Estado, que se pagam os touros, se alimentam os toureiros, se fazem procissões, se dá vida aos feirantes e artistas e se lançam foguetes: rebenta estupor que estás pago como dizia o Manuel Bacalhau. E nos dias de festa namoram-se e casam-se. Fazem filhos e pais e avós e primos e amigos, ligados à terra, ao touro e ao culto; a vida é assim.

O Estado cresceu e tirou parte deste dinheiro, inclusive dos de fora que vinham catrapiscar as pequenas da terra gerando de vez em quando murros e encontrões. E agora há gente das ideologias que vive dos impostos cobrados da terra e que quer destruir a festa e o culto que é da terra e das suas gentes.

As ideologias são assim, julgam pessoas, sítios e culturas pensando que os ideais podem ser sem o real e contra o real. O desastre é que conseguem porque os que vivem no culto e na festa tendem a cristalizá-las em regras e moralismos, em hierarquias de taurinos e direitos de aficionados e, muitas vezes, facilmente trocam pastagens de gado bravo por eucaliptos que ardem, porque não sabem dizer não ao subsídio do Estado pago com a dívida de todos.

Tenho esperança que, um dia, as ovelhas voltarão a produzir bom queijo nas terras ocupadas pelas matas florestais dos serviços do Estado. E que os touros voltarão a ser o símbolo dos ambientalistas mais sabedores. Quando perceberem que o importante é o culto que nos junta com os outros e com a paisagem. E que os touros que criamos morreriam de fome e de doença se não os festejássemos todos os anos. Ou então teríamos que ter leões e panteras que morreriam lutando uns contra os outros. Com as touradas evoluímos dessa barbárie mas com os animais urbanos teremos a barbárie das pestes.

A alternativa de desastre já está connosco: é o eucalipto, o fogo, o deserto, a emigração, as megacidades e a peste. Mais as escolas a ensinar, com inconsistência, que as árvores são boas e o fogo é mau; e que a desertificação é um problema e a emigração um flagelo. Como se as árvores que ocuparam as pastagens não fossem a causa do fogo e da desertificação. Não aprendem porque ganham em não aprender para ensinar a última ideologia da moda. Já vi passar veganistas, estalinistas, maoistas e fascistas; as gerações sucedem-se muitas vezes nas mesmas tribos de rolhas do poder. E, olhando para trás, consigo ver as hordas de anarquistas, republicanistas, liberalistas, afrancesados, estrangeirados, iluministas, espanholados e inquisicionistas. Não aprendem que a liberdade se ganha no real. Sobretudo não aprendem que o real ganha sempre mas, devido à sua falta de humildade, à custa de muitos sofrimentos e desastres causados pelas ideologias da moda.

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