• Tomaz Ponce Dentinho

Ruído de fundo – COVID 19


Em 1965, dois astrónomos, por mero acaso, descobriram a melhor evidência, até hoje, de que, há aproximadamente 15 mil milhões de anos, o universo tinha a sua origem. Digo, em jeito de brincadeira, que é necessária uma dose igual de fé para acreditar no Big Bang como para acreditar nos dogmas mais rebuscados das religiões, pela simples razão de que os dois são resultado da mente humana, falível. Uma diferença contudo separa as duas realidades: uma é uma evidência circunstancial passível de ser alterada face a novas evidências e a outra… é um dogma, e ponto final.

Deste raciocínio decorre que raramente em ciência há certezas absolutas. Daí a diferença entre uma teoria (a melhor explicação baseada nas evidências, à data) e leis (testadas pela repetição e provadas pela consistência dos resultados). Parafraseando Karl Popper, em uma discussão crítica aproximamo-nos da verdade eliminando as mentiras, isto é, a ciência cria a sua verdade por eliminação de variáveis falsas. Sendo toda a verdade apenas uma “tentativa de verdade”, reconhecendo humildemente que melhores verdades poderão emergir como resultado de novos dados e que esta verdade pode não ser a minha.

Nesta nova realidade, decorrente da pandemia COVID19, o ruído de fundo na comunicação social, nas redes sociais e nas próprias instituições científicas e o método científico não foram, à primeira vista, bons aliados. Ou terão sido?

Realidades bem diferentes são a investigação e publicação de resultados, como realidade factual que respeita procedimentos estabelecidos para minimizar o erro, e a comunicação de ciência. Sendo professor devo, acima de tudo, ser especialista em comunicação. Uma boa ideia, facilmente, perde-se com um mau orador como o seu contrário é igualmente possível (até há quem lhe chame populismo ou demagogia).

Nesta avalanche de trabalhos científicos, com o enquadramento político, social e económicos aliado à pressão mediática é mais do que previsível haver ruído de fundo. Devo acrescentar não só é previsível como é inevitável. Devemos contudo confiar nos verdadeiros especialistas e suspender o ruído de fundo. Porque certamente este ruído, tal como em 1965, será descortinado com a devida análise ponderada. A devida distância temporal permitirá, então, retirar conclusões mais amadurecidas e desapaixonadas.

Ontem e hoje é nossa função comunicar eficazmente de forma a ensinar a pensar, transformando dados em informação, informação em conhecimento, conhecimento em sabedoria.

O bom da ciência é que os dados são verdadeiros quer acreditemos, ou não, neles. Há que haver um equilíbrio em ser céptico e ser apenas um receptáculo de dados. O ceticismo implica raciocínio sobre a realidade e não apenas uma aceitação tacita da mesma.

É nossa função, enquanto cidadãos e docentes, em particular, habilitar a sociedade, a atingir verdades objetivas e capacitá-la… capacitar-nos… para que possamos instruir outros a fazer o mesmo. Quanto mais desconetada estiver uma sociedade da verdade objetiva menos capacitada estará para a tomada de decisões que a beneficiarão. Ensinar a aprender vai muito para além de transmitir factos. Aceitar factos vai muito para além de os admitir na nossa verdade, há que os submeter a um julgamento crítico.

Sejamos cépticos perante as informações que nos são apresentadas. Investiguemos primeiro, publiquemos depois.

Hélder Amaral

Angra do Heroísmo, 20/06/2020

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