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São João adiado para 2021 na Terceira

Dizer que o confinamento não me custou muito é pecar por defeito. Tirando a preocupação com a Humanidade e os mais velhos, foi um tempo quase exultante. Mesmo perante uma meteorologia horrível para uma Primavera frequentemente encantadora, aliviei-me de todos os compromissos chatos (embora também de alguns estimulantes), concentrei-me o que pude no meu trabalho, gozei o jardim e os cães, reduzi uns 20 bpm à pulsação cardíaca e nem sequer tive de engordar.

Mas, de repente, o meu corpo começou a dar sinais de desequilíbrio. Fui ao calendário: era da falta das Sanjoaninas. Começariam este fim-de-semana, e durante dez dias haveríamos de andar todos um pouco (e às vezes um muito) embriagados por Angra, a ouvir o som das marchas e a inspirar os primeiros cheiros do Verão e a comer morcela frita e a ver as raparigas. Mas não.

Foi a primeira vez que isto tudo me custou pessoalmente, fora a ansiedade com que se ia ao supermercado nas primeiras semanas. Não haver Sanjoaninas uma vez por ano é como não haver noite uma vez por dia (pobre malta dos círculos polares): corrompe-se-nos o biorritmo, confundem-se-nos as emoções, deturpa-se-nos a noção do tempo. E, de repente, olha-se para a frente e falta um ano ainda. É burguesa pra caramba, a minha tragédia. A nossa, que sei bem não ser o único. Mas não deixa de ser uma tragédia. Eu quero vestir uma t-shirt, e descer a Rua da Sé, e beber cerveja pela garrafa, e sentir o cheiro do calor, e dançarolar timidamente a um canto, e reencontrar os rapazes do meu tempo, e mandar umas bocas ao desfile, e soltar a franga sem culpa ou vergonha, e voltar para casa às nove da manhã – e, no fim, achar que para o ano quero estar vivo outra vez só para poder estar ali. É uma necessidade biológica, e agora já acho que mais valia apanharmos todos o raio do bicho de uma vez e, enfim, concentrarmo-nos no Alto das Covas, para descer a cidade a bailar.


Foto: António Araújo

Texto: Joel Neto

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