• Félix Rodrigues

Uma infecção com "delay" de informação

Não foram os 700 casos máximos previstos ontem pelo Cabral, mas 605 os novos casos de hoje. Foi um enorme aumento se comparado com os 425 de ontem. Isso apenas significa que há um “delay” na comunicação de resultados em Portugal que estende o efeito de fim de semana. Amanhã prevê-se que os resultados sejam piores do que hoje. Totalizamos os 65626 casos de Covid-19 no país com uma tendência clara crescente. Há a registar apenas três óbitos, mas com um excesso de mortalidade global no país, relativamente ao mesmo dia do ano passado, de 37 óbitos. Tanto a infeção como o excesso de mortalidade apontam no mesmo sentido de crescimento.

Não há que ter medo, mas há que ter muito cuidado porque isso impacta a nossa vida e a dos outros, mesmo que vivam noutros países.

A Índia atingiu hoje os 5 milhões de infetados com 82 mil mortes. Tratam-se dos números oficiais porque se considerarmos que na realidade há 5 vezes mais casos que não foram detetados, como é comum em muitos países europeus, isso daria algo como 25 milhões de infetados e 410 mil mortes.

Os Estados Unidos da América caminham para os 7 milhões de infetados (hoje 6,6 milhões) com 195 mil mortes oficiais. Isso não é um problema nem sequer ciência, pois tal como o clima, e de acordo com Trump, a ciência não sabe que o mundo vai arrefecer. Há de facto na América inspiração divina ou então contactos privilegiados com entidades divinas.

O Brasil ultrapassou os quatro milhões de infetados oficiais e os 133 mil mortes.

Os números da infecção global são preocupantes e não parecem parar de crescer de modo exponencial.

A Venezuela continua a crescer mais rapidamente que Portugal, apesar de ditadura, mas há outros países que se lhe seguem que também têm velocidades de crescimento da infeção elevadas, como o Barém, o Nepal ou a Costa Rica.

Há padrões semelhantes ao padrão português com segundas vagas baixas ou até mais baixas que Portugal (não vou entrar na discussão de segunda ou terceira vaga porque isso é irrelevante). O controlo da infeção está nas mãos dos portugueses e de todos e cada um de nós.

Espanha está pior do que nunca, a França também. O Reino Unido está melhor controlado agora do que na primeira fase. A Itália e a Alemanha melhores do que os países anteriormente referidos. Essa classificação baseia-se no padrão das curvas diárias e não no número acumulado de infetados.

Temos números para todos os gostos e todas as interpretações, onde a maioria deles carecem de sistematização e restrições para que possam ser comparados.

Na maioria dos casos o número de infetados por milhão de habitantes não faz qualquer sentido ou até mesmo o número de infetados por 100 mil habitantes.

Vejamos alguns exemplos: A ilha Terceira tem até ao momento 26 casos acumulados de infeção o que corresponderia a 46 infetados por milhão de habitantes porque só tem 56 mil habitantes. A ilha de São Miguel com cerca de 137 mil habitantes teria 145 infetados por cem mil habitantes, o Pico com cerca de 14 mil habitantes e 15 casos teria 107 infetados por milhão de habitantes. A Graciosa com sete casos e 4 393 habitantes seria a ilha mais infetada dos Açores com 159 infetados por 100 mil habitantes. Ora, nada disso faz sentido, pois bastaria um único caso no Corvo para essa taxa corresponder à ilha mais infetada dos Açores com 222 casos por 100 mil habitantes.

Se usarmos o número de casos por área administrativa regional o mapa seria completamente diferente. Isso corresponderia a um retrato correto da infeção? Também não, se não houver o devido planeamento estatístico que nos permita comparar métricas. Posto isto, interessa ver evoluções, velocidades e respostas à pandemia.

Se as medidas de distanciamento social são pensadas em número de pessoas por metro quadrado, qual é o sentido que faz comparar infetados por 100 mil habitantes? Por outro lado, se a concentração populacional é diferente nas metrópoles e nas aldeias, que sentido faz aplicar-se a mesma métrica a todo o país com assimetrias populacionais elevadíssimas? A razão é simples: É mais fácil gerir tudo com uma regra única do que com um conhecimento aprofundado da realidade, pois isso implicaria, delegação de poderes.



Félix Rodrigues

92 visualizações
acda_cubo.png

Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores
Canada de Belém

TERINOV - Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira - Sala B4

9700-702 Terra Chã, Angra do Heroísmo

NEWSLETTER

  • White Facebook Icon
  • White LinkedIn Icon
  • White Twitter Icon

© Associação para a Ciência e Desenvolvimento dos Açores